Um Barco

terça-feira, 22 janeiro 2008

No Fundo

No fundo do olho, a mente
Lê a vida na retina, invertida
E, enganadora, reinverte,
Deixando o mundo direito,
Menos no fundo,
No fundo, tudo é imperfeito.

No fundo da mente, o sonho
Se esconde por não concordar
Com a imagem que a mente girou,
Para tudo parecer natural,
Menos no fundo,
No fundo, tudo é irreal.

No fundo do sonho, o desejo
À espreita, mas enganado
Pela mente que aprisiona
Tudo que é invisível,
Menos no fundo,
No fundo, tudo é possível.

No fundo do desejo, a ilusão
Contida, tolhida, não acredita
Na mente ardilosa
Que a vida disfarça,
Menos no fundo,
No fundo, tudo é uma farsa.

No fundo da ilusão, o olho
Que vê a vida alimentar o sonho,
Que traz o desejo e cria a ilusão
De ordem, de sentido, de um plano,
Menos no fundo,
No fundo, tudo é engano.

No fundo do fundo, a porta,
Para além da vida, do sonho,
Do desejo e da própria ilusão,
Início de uma grande jornada,
Menos no fundo,
No fundo, no fundo, tudo é nada.

Inutil Paisagem
(Tom Jobim & Aloysio de Oliveira)

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Mas pra que
Pra que tanto céu
Pra que tanto mar,
Pra que
De que serve esta onda que quebra
E o vento da tarde
De que serve a tarde
Inútil paisagem
Pode ser
Que não venhas mais
Que não voltes nunca mais
De que servem as flores que nascem
Pelos caminhos
Se o meu caminho
Sozinho é nada
É nada

Filed under: Poesia — Um Barco @ 9:58 am

quarta-feira, 16 janeiro 2008

Minha Rua – Sidney Miller

Visitei, recentemente, a rua em que vivi, dos 5 aos 9 anos de idade e, naquele momento em que lá estive, a canção deste post se tornou mais nítida em minha lembrança, como a rua que, em linhas gerais, mudou relativamente pouco em quase 50 anos. Algumas casas ainda tinham a mesma fachada.

Quanto aos personagens descritos na canção, lembro-me de todos, até e inclusive, do último descrito que, afinal de contas, era eu mesmo, naquela distante década de 50.

Esta música nem faz parte do rol das mais conhecidas de Sidney Miller, como “A Estrada e o Violeiro”, “O Circo”, “Pois é Pra Que”. Ele morreu muito cedo, aos 35 anos e os títulos de suas canções evocavam pedaços da infância, como, além das citadas, “Menina da Agulha”, “Passa, Passa Gavião”, “Marré-de-Cy”, onde usava pedaços de letras originais das canções infantis para pontear letras, em geral longas, com belas imagens.

Era um letrista refinado. “A Estrada e o Violeiro”, que podem ouvir em um post de 2005, obteve o prêmio de melhor letra do III Festival da Música Popular Brasileira, Teatro Record, São Paulo, em 1967.

Sidney Miller viveu pouco, de 1945 a 1980, deixando uma obra pequena e pouco conhecida, mas cheia de jóias musicais.

O Quarteto em Cy é quem interpreta este arranjo de “Minha Rua”, que fez parte do álbum (LP) “Em Cy Maior”, de 1968. Creio, inclusive, que é a única gravação. A letra, não consegui localizar em nenhum site de busca, mostrando como é pouco conhecida, mas como já sabia quase de cor, foi fácil transcrever e compartilhar aqui.

Minha Rua
(Sidney Miller)

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Minha rua pequenina
Tem seu mundo em pouco espaço
Cada esquina tem seu rosto
Cada rosto seu compasso

Cada passo na calçada
Me parece estar chamando
Venham todos na sacada
Que o carteiro vai passando

Roda o mundo e não se cansa
Roda o tempo e não se importa
Porque traz uma esperança
Deixa um sonho em cada porta
Na saudade que transporta
Sua vida não é sua.
São mil vidas de outras terras
De outra gente de outras ruas

Cada passo na calçada
Me parece estar chamando
Venham todos na sacada
Varredor lá vem chegando

Varre o pó da madrugada
Que a vassoura é pau e palha
Varre o lixo na calçada
Que de noite o vento espalha
Fosse a vida o teu trabalho
Vagaroso e vagabundo
Teu sorriso varreria
Varredor a dor do mundo

Cada passo na calçada
Me parece estar chamando
Venham todos na sacada
Vendedor lá vem cantando

Na cabeça traz um cesto
Na cantiga traz a moda
No pregão traz o produto
Chama o povo e faz a roda
Sua voz quando anuncia
Toma o gosto da cocada
Que de noite é melodia
Pra adoçar a namorada

Cada passo na calçada
Me parece estar chamando
Venham todos na sacada
Que o moleque está brincando

Rei da rua tem tesouro
Tem coroa que é de lata
Mas tem sonho que é de ouro
Liberdade que é de prata
Pois seu reino de pirata
Sem fronteira e sem esquina
Ninguém sabe onde começa
Ninguém sabe onde termina

Minha rua pequenina
Faz a volta em cada aurora
Fecho os olhos, dobro a esquina
Digo adeus e vou-me embora

Filed under: Música — Um Barco @ 9:51 pm

terça-feira, 1 janeiro 2008

Ano Novo – Chico Buarque

Quando pensei em escrever algo musical sobre o ano novo, a primeira canção em que pensei foi, justamente, esta que dá título ao presente post.

Fez parte do segundo álbum de Chico Buarque, “Chico Buarque de Hollanda – Vol.2”, lançado em 1967. Sobre o álbum, podem ler o que o próprio Chico escreveu, em junho de 1967, em seu site.

Na época, a cada lançamento de disco de algum dos grandes, como Chico, Edu Lobo, entre outros, os tocadores de violão e aprendizes (categoria em que me inscrevia) procuravam, o mais rápidamente possível, aprender as harmonias, para tocar nas rodas das turmas de bairro, minha formação e consolidação estético-musical. E não foi diferente com o segundo e esperado “LP” do Chico.

Musicalmente a canção não agradou muito ao resto de minha turma, principalmente em comparação a outras gemas musicais do álbum, como “Noite dos Mascarados”, “Com Açúcar e Com Afeto”, adorada pelas garotas, “Quem Te Viu, Quem Te Vê”, pois tinha uma andamento muito rápido e duração de pouco mais de um minuto, com uma letra longa e sem refrões de impacto, a não ser a frase que encerrava cada estrofe, “Porque é ano Novo”.

No meu caso, porém, a letra sempre chegava junto e com a mesma importância da melodia, daí eu ter gostado da mensagem que a letra trazia, já que até hoje sou um pouco avesso ao burburinho que cerca a chegada do “ano novo”.

Posteriormente, ao fazer uma busca em torno do título da canção, li em algum site de letras que a mesma havia sido gravada por Ana Carolina, entretanto não consegui encontrar álbum ou dvd, mesmo no site oficial dela, que contivesse alguma referência a “Ano Novo”. A mesma busca me mostrou várias outras canções com título igual ou fazendo referência, não revelando, entretanto, “Rancho do Ano Novo” de que muito gosto, da dupla Edu Lobo & Capinam.

Como disse o poeta Cacaso numa canção (já tocada em um post), “…o resumo é de cada um…”, principalmente a cada fim de ano, onde a necessidade de resumir tudo que se passou é mais forte do que as alegrias e tristezas sentidas, nos melhores ou piores momentos. Algo como uma tentativa de racionalização das emoções.

Que venha, afinal, o ano novo!

Ano Novo
(Chico Buarque)

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O rei chegou
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
É pra cantar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo

Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E quem já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo

A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar

E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo

Filed under: Música — Um Barco @ 12:30 am

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