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	<title>Um Barco</title>
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		<title>Três Oleiras</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Jun 2010 00:41:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Um Barco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Digressões]]></category>

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		<description><![CDATA[ &#8221;Três Oleiras&#8221; , na verdade, são duas ceramistas, Ana e Yara, que criaram um ateliê de cerâmica no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro.
Tiveram a idéia de ilustrar parte das obras com descrições nascidas da percepção de algumas pessoas que foram convidadas a escrever sobre as peças que viam, pelo menos em fotos. Assim [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> &#8221;<a href="http://ateliertresoleirasceramica.blogspot.com/" target="_blank">Três Oleiras</a>&#8221; , na verdade, são duas ceramistas, Ana e Yara, que criaram um ateliê de cerâmica no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro.</p>
<p>Tiveram a idéia de ilustrar parte das obras com descrições nascidas da percepção de algumas pessoas que foram convidadas a escrever sobre as peças que viam, pelo menos em fotos. Assim é que, uma visita ao blog do ateliê mostrará várias dessas visões acerca das cerâmicas que são lá confeccionadas. Sendo amigo de uma delas, fui instado a colaborar, meio receoso, afinal nunca havia tentado algo assim.</p>
<p>Função e forma são atributos nem sempre conflitantes, nem sempre convergentes, porém sempre individualmente ligados à percepção de cada observador (ou utilizador). Despertam (ou não) pensamentos, emoções, lembranças, enfim, como arte, tocam em alguma tecla ou corda interior e, como objetos de decoração ou utilização, se incorporam ao cotidiano, fazendo parte do pano de fundo de nossa existência.</p>
<p>Não busquei nenhum referente, apenas procurei limpar minha mente, enquanto olhava os objetos que devia &#8220;descrever&#8221; e fui colocando no papel virtual do &#8220;Bloco de Notas&#8221; as idéias verbais que cada objeto me sugeria, nome ou título, incluído. O resultado pode ser visto a seguir.</p>
<p>Meus agradecimento às duas ceramistas pela oportunidade de poder participar, bem como pela gentileza em permitir que eu reproduzisse, neste espaço, parte da beleza que compartilham em seu blog e ateliê.</p>
<p>==============================</p>
<p>Nervuras</p>
<p><img src="/imagens/nervuras.jpg" alt="nervuras" /> </p>
<p>Nervuras</p>
<p>São como veios, veias,<br />
Cruzando, rasgando, a pedra<br />
Que se retorce, regular e bela<br />
Que se curva à própria beleza,<br />
Nervosa, fria, fragmento<br />
Estático, momento capturado,<br />
Presente.</p>
<p>                     Um Barco</p>
<p> </p>
<p>Simetria</p>
<p><img src="/imagens/simetria.jpg" alt="simetria" /></p>
<p>Simetria</p>
<p>Num céu enevoado,<br />
Finito e curvo,<br />
As linhas<br />
Aliciam olhares<br />
Alistam vontades<br />
Alumiam sonhos<br />
Alinham-se obedientes,<br />
Aninham-se as linhas,<br />
Confortadas, comportadas,<br />
Compenetradas, mansas<br />
Na regularidade simétrica<br />
Dos sorrisos calmos.</p>
<p>                            Um Barco</p>
<p>Forma</p>
<p><img src="/imagens/cubo.jpg" alt="cubo" /></p>
<p>Forma</p>
<p>Regular, que seja,<br />
Simétrica que se deseje,<br />
Imperfeita, pois de humana origem,<br />
Fênix de pedra, do forno parida,<br />
Forma e sonho,<br />
Desejo vago,<br />
Abstração e realidade,<br />
Juntas.</p>
<p>                     Um Barco</p>
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		<title>Águas Passadas &#8211; Eduardo Gudin</title>
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		<comments>http://umbarco.blog.br/?p=448#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 06 Jun 2010 23:44:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Um Barco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>

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		<description><![CDATA[Águas não passam. Escoam, resvalam, encharcam, meio assim como as ondas de melancolia que louvam a tristeza e levam a paz, aquela paz crônica, embora esquecida, encruada, reprimida mas nunca contida o suficiente para ficar quieta no fundo da memória aparentemente enganada.
Águas passadas movem moinhos de lembranças, alguns dos quais escondidos, abandonados, até o instante em que um gatilho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Águas não passam. Escoam, resvalam, encharcam, meio assim como as ondas de melancolia que louvam a tristeza e levam a paz, aquela paz crônica, embora esquecida, encruada, reprimida mas nunca contida o suficiente para ficar quieta no fundo da memória aparentemente enganada.</p>
<p>Águas passadas movem moinhos de lembranças, alguns dos quais escondidos, abandonados, até o instante em que um gatilho qualquer dispare aquele traço de memória que, contra nossa vontade, abre comportas e fazem a roda girar, moendo nosso silêncio, revivendo ruídos, mostrando caminhos não percorridos, decisões não tomadas, arrependimentos cristalizados.</p>
<p>Nossos caminhos são nossos destinos de cada momento. Nossos momentos são nossa direção, a cada contato. Nossos contatos são nosso alimento, a cada vontade. Nossa vontade é uma bússola que nunca aponta o norte de nossa necessidade. Resvala rápido sem que se possa capturar o rumo certo.</p>
<p>E, como na canção,  mágoas antigas não passam, como as águas que passam, como o tempo que passa. Resta sorrir, suportando.</p>
<p>Águas Passadas<br />
(Eduardo Gudin &amp; Roberto Riberti)</p>
<p>Bem te queria poupar,<br />
Não falar dessa dor traiçoeira<br />
Mas como calar quando dessa maneira<br />
A tristeza vem me atormentar,<br />
Mas pra que te magoar.<br />
Se nem sei se será passageira<br />
Ou terei que fugir, que sofrer, que chorar<br />
Ou só terei que ver essa onda me levar</p>
<p>Eu só queria poder separar<br />
Nosso amor dessa antiga ferida<br />
Prá não machucar um começo de vida<br />
E assim te sentir me levar e poder descansar<br />
O meu corpo e minha alma sofrida<br />
E sorrir sem lembrar, sem trair, sem negar<br />
E assim só me deixar te viver e navegar</p>
<p>Eu gasto a vida e não vou entender<br />
Que a mágoa antiga não vai se curar<br />
E nada vai lhe conter<br />
Terei que só suportar<br />
Esperar, conservar um sorriso no olhar.</p>
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		<title>Percepção</title>
		<link>http://umbarco.blog.br/?p=412</link>
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		<pubDate>Thu, 15 Apr 2010 00:35:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Um Barco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Agora percebo
Se não claramente,
Mais facilmente, mais forte,
A presença fria e muda
Da soma de meus silêncios,
Da diferença de meus tempos,
Meus quantos, meus quases,
Meus já não distantes limites,
Meu cálice de anseios,
Meu pão que não sacia
Embora ainda queira
Ir, embora, do que não sou.
Agora, só agora&#8230;
Mas ainda cedo bastante
Para emergir dos sonhos fáceis,
Do sorriso contumaz e frio,
Das comparações vazias,
De [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Agora percebo<br />
Se não claramente,<br />
Mais facilmente, mais forte,<br />
A presença fria e muda<br />
Da soma de meus silêncios,<br />
Da diferença de meus tempos,<br />
Meus quantos, meus quases,<br />
Meus já não distantes limites,<br />
Meu cálice de anseios,<br />
Meu pão que não sacia<br />
Embora ainda queira<br />
Ir, embora, do que não sou.</p>
<p>Agora, só agora&#8230;<br />
Mas ainda cedo bastante<br />
Para emergir dos sonhos fáceis,<br />
Do sorriso contumaz e frio,<br />
Das comparações vazias,<br />
De tudo que se mostra óbvio,<br />
Justamente por não ser, não passar<br />
De mera percepção, imagem<br />
Revelada na consciência,<br />
Irrealidade subjetiva,  falsa,<br />
Tão forte e por tanto tempo<br />
Que nada deixou, senão ausência.</p>
<p>Agora sim, sinto<br />
Se não tão fortemente,<br />
Mais docemente, mais mansa,<br />
A ausência morna e gritante<br />
Dos sonhos do ontem, bem longe.<br />
A realidade vizinha, amiga,<br />
Da soma de meus futuros,<br />
Meus parcos, meus muitos,<br />
Meus poucos, meus todos<br />
Instantes ainda ativos, plenos,<br />
Vívido cenário, vivo, presente.<br />
Vivo mais, ainda mais vivo.</p>
<p> </p>
<p>O Jeito de Viver<br />
(Sá &amp; Guarabyra)</p>
<p>Eu ainda sou aquele sonhador<br />
Desculpe se o que sinto é muito antigo<br />
Desculpe o que eu fizer que é por amor<br />
Eu ainda vivo no mundo da lua<br />
Fazendo planos simples pro futuro</p>
<p>Eu na verdade sou um menestrel medieval<br />
Assombrado por imagens de televisão<br />
Assustado pelas coisas que acontecem<br />
Dentro do meu coração<br />
Por isso eu penso que essas coisas<br />
Não deviam ser como elas são</p>
<p>Eu ainda estou querendo descobrir<br />
Um jeito de mostrar meu sentimento<br />
Um jeito claro e simples de viver<br />
Sem precisar fingir</p>
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		<item>
		<title>Não querer</title>
		<link>http://umbarco.blog.br/?p=384</link>
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		<pubDate>Tue, 22 Dec 2009 19:03:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Um Barco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Não quero mais, não quero!
Mas desejo, mesmo sem querer.
Não quero mais navegar,
Nos mares de meu desejo.
As pedras do jardim, não quero,
Nem os peixes que nadam e negam
Que desejo o que não quero,
Mesmo desejando, sem querer.
Não quero mais a lua branca,
Mas a desejo redonda, amarela,
Iluminando o que não mais quero
E o rubro desejo de querer mais.
Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não quero mais, não quero!<br />
Mas desejo, mesmo sem querer.<br />
Não quero mais navegar,<br />
Nos mares de meu desejo.</p>
<p>As pedras do jardim, não quero,<br />
Nem os peixes que nadam e negam<br />
Que desejo o que não quero,<br />
Mesmo desejando, sem querer.</p>
<p>Não quero mais a lua branca,<br />
Mas a desejo redonda, amarela,<br />
Iluminando o que não mais quero<br />
E o rubro desejo de querer mais.</p>
<p>Não mais à beira-mar.<br />
Amar não quero, só desejo a espuma<br />
Se espalhando em meu barco,<br />
À beira de meu desejo.</p>
<p>Uma praça já não quero,<br />
Nem banco ou carrocinha,<br />
Mas desejo uma rua, reta,<br />
Que me leva, leve e não me traz.</p>
<p>Não quero o rolar das pedras<br />
Sopradas por ventos novos,<br />
Mas desejo que brilhem os sons<br />
Dos sinos da liberdade.</p>
<p>Quero mais, quero num bar,<br />
Que meu desejo se molhe,<br />
No mar de não mais querer,<br />
No ato de beber, como quero!</p>
<p>Não quero, não por querer.<br />
Desejo, não por querer.<br />
Desejo, por não querer.<br />
Não quero, por desejar.</p>
<p>Não quero, desejo, não&#8230;quero!</p>
<p>O Bem e o Mal<br />
(Danilo Caymmi &amp; Dudu Falcão)</p>
<p>Eu guardo em mim dois corações<br />
Um que é do mar, um das paixões<br />
Um canto doce,<br />
Um cheiro de temporal<br />
Eu guardo em mim um Deus,<br />
Um louco, um santo<br />
Um bem e um mal</p>
<p>Eu guardo em mim tantas canções<br />
De tanto mar, tantas manhãs<br />
Encanto doce<br />
O cheiro de um vendaval<br />
Guardo em mim<br />
O Deus, o louco, o santo<br />
O bem e o mal</p>
<p>Eu guardo em mim tantas canções<br />
De tanto mar, tantas manhãs<br />
Encanto doce<br />
O cheiro de um vendaval<br />
Guardo em mim<br />
O Deus, o louco, o santo<br />
O bem e o mal</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>E no mais?</title>
		<link>http://umbarco.blog.br/?p=353</link>
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		<pubDate>Wed, 09 Dec 2009 21:27:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Um Barco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>

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		<description><![CDATA[No mais? No mais é isso&#8230;
Indo, às vezes navegando, em outras conduzido ou arrastado pela corrente diária do cotidiano, quando não despencando em alguma cachoeira mas, pelo menos, indo. Melhor que a tranquilidade ilusória dos lagos calmos nos quais abrimos mão das emoções em prol de uma paz que, na verdade, esconde o conformismo e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No mais? No mais é isso&#8230;</p>
<p>Indo, às vezes navegando, em outras conduzido ou arrastado pela corrente diária do cotidiano, quando não despencando em alguma cachoeira mas, pelo menos, indo. Melhor que a tranquilidade ilusória dos lagos calmos nos quais abrimos mão das emoções em prol de uma paz que, na verdade, esconde o conformismo e a condescendência.</p>
<p>No mais, é querer sentir que ainda há uma vontade, oculta ou não, um desejo, qualquer coisa que diferencie aceitação de satisfação, responsabilidade de receio, vontade de hábito.</p>
<p>No mais, conciliar ou tentar harmonizar sentir e pensar, sabendo da impossibilidade disso, pelo menos num nível que não pareça, mesmo de fato sendo, que estamos querendo nos enganar. Olhar em volta e ver que tudo, bem sabemos, não passa de formas distintas da mesma coisa, o que não nos impede de ter a ilusão de um novo inexistente, a não ser em nossas fantasias e esperanças.</p>
<p>No mais, o olhar perdido nas paredes, vazio, mais por não saber como, do que não ter o que olhar, por não reconhecer ou não aceitar, daí a visão de um vácuo infinito, que preenchemos com o que resta de nossas quimeras.</p>
<p>No mais, as alegrias já conhecidas e repetidas, algumas até esperadas, apreciadas pelo que são e não pelo que representam, por nos trazer aquela esperança de uma próxima vez, cada vez mais próxima da última, o que as faz mais raras.</p>
<p>No mais, presenças amigas, desinteressadas de qualquer coisa que não seja a proximidade, a troca, o compartilhamento de solidões, iguais na forma, mesmo que não o sejam nas causas, sensação de se reconhecer no outro, espelho indefinido e fiel.</p>
<p>No mais, é tudo aquilo em que não pensamos, por já estar incorporado à rotina, coisas boas, pequenos prazeres, um gole de vinho ou cerveja com amigos, uma canção que toca em alguma corda interna, um sorriso lido ou imaginado num rosto até desconhecido, mas querido, a paz de árvores em dias sem vento.</p>
<p>No mais, a noite, sempre ela, embalando lembranças, acolhendo vontades, iludindo razões, cobrando atos para, ao acordar, devolver tudo em forma de nós desatados, farrapos de sonhos, realidades equivocadas.</p>
<p>Pensando bem, no mais é, na verdade, muito menos do que queremos crer, muito embora seu peso pareça nos esmagar, nos curtos intervalos da vida, em que nos confrontamos com a natureza fluida das aspirações distantes.</p>
<p>Pensando melhor, no mais, tudo bem&#8230;</p>
<p>A Noite<br />
(Ivan Lins &amp; Vítor Martins)</p>
<p>A noite tem bordado<br />
Nas toalhas dos bares<br />
Corações arpoados<br />
Corações torturados<br />
Corações de ressaca<br />
Corações desabrigados demais</p>
<p>A noite tem falado<br />
Nas cadeiras dos bares<br />
De paixões afogadas<br />
De paixões recusadas<br />
De paixões descabidas<br />
De paixões envelhecidas demais</p>
<p>A noite traz no rosto sinais<br />
De quem tem chorado demais</p>
<p>A noite tem deixado<br />
Seus rancores gravados<br />
À faca e canivete<br />
À lápis e gilette<br />
Por dentro das pessoas<br />
Por dentro dos toilettes e mais<br />
Por dentro de mim</p>
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		<item>
		<title>Qualquer hora</title>
		<link>http://umbarco.blog.br/?p=306</link>
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		<pubDate>Sun, 22 Nov 2009 23:41:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Um Barco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Qualquer hora o tempo cai
Como uma vontade atrasada,
Mentira desmascarada,
Que nem quarta-feira de cinzas,
Lua cheia, delírio real.
E vai ser como uma enchente,
Inundando a vida com dias,
Misturando instantes, momentos,
Estantes de velharias, modernas
Lembranças, crescente.
E a fantasia, nova, escondida,
Enfim escancarada, explode, solta
Nos rostos risadas, palhaças,
Deformando dores, tristezas
Em prazeres, belezas, falsas.
Numa mistura estranha,
De mente e coração, há vida
Inteligente no peito, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Qualquer hora o tempo cai<br />
Como uma vontade atrasada,<br />
Mentira desmascarada,<br />
Que nem quarta-feira de cinzas,<br />
Lua cheia, delírio real.</p>
<p>E vai ser como uma enchente,<br />
Inundando a vida com dias,<br />
Misturando instantes, momentos,<br />
Estantes de velharias, modernas<br />
Lembranças, crescente.</p>
<p>E a fantasia, nova, escondida,<br />
Enfim escancarada, explode, solta<br />
Nos rostos risadas, palhaças,<br />
Deformando dores, tristezas<br />
Em prazeres, belezas, falsas.</p>
<p>Numa mistura estranha,<br />
De mente e coração, há vida<br />
Inteligente no peito, que mente,<br />
E nem se enxergava, antes,<br />
Não percebia, só mandava.</p>
<p>E o que parecia, não é<br />
Senão a sombra atirada<br />
No chão, descartada, minguante<br />
De toda penumbra, de luz<br />
No corpo desenhada, sem fé.</p>
<p>No fim do túnel, esperança<br />
Nem há, nem túnel tem, fim<br />
Do instante, da fase, da hora<br />
Emprestada, imposta, imprestável<br />
Alegoria, findou.</p>
<p>Qualquer tempo, chega o fato,<br />
Como uma ressaca curtida,<br />
Verdade de novo assumida<br />
Como primeiro de abril,<br />
Depois que acaba, resta a vida.</p>
<p> </p>
<p>Olha a Lua<br />
(John Neschling &amp; Geraldo Carneiro)</p>
<p>Olha a lua<br />
Minha doida<br />
Minha triste colombina<br />
Conta por que sofres tanto assim<br />
Será que é pouca<br />
A minha alma louca de arlequim<br />
Dentro de mim<br />
Um sonho danado de viver embriagado<br />
Pelo lado avesso</p>
<p>Olha a lua<br />
Antes que ela vá pra trás do edifício<br />
Não, não tenha medo de falar do teu segredo<br />
De contar, na escuridão<br />
As penas do teu coração</p>
<p>Pensa na dor que mora em mim<br />
Fatal<br />
Sem começo e sem fim<br />
Eu só quero te encontrar<br />
Pra te ver e te amparar</p>
<p>Olha a lua<br />
Minha doida<br />
Minha colombina lua<br />
Sofre a tua negra solidão<br />
E sonha fundo<br />
Porque esse mundo é feito de ilusão<br />
O teu coração é um pouco demente<br />
E a loucura da gente não tem céu nem inferno</p>
<p>Olha a lua<br />
Minha doida<br />
Minha colombina lua<br />
Não, não tenha medo de falar do teu segredo<br />
De contar na escuridão<br />
As penas do teu coração</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Mordaça &#8211; MPB4</title>
		<link>http://umbarco.blog.br/?p=276</link>
		<comments>http://umbarco.blog.br/?p=276#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 13 Nov 2009 21:23:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Um Barco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Digressões]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://umbarco.blog.br/?p=276</guid>
		<description><![CDATA[A música, pelo menos para mim, funciona, em determinadas ocasiões, como um gatilho, disparando memórias, lembranças, fatos não ocorridos, embora desejados, vontades ilusórias de um passado incerto, enfim, abre portas de quartos, de porões, de armários.
Quando isso ocorre, é como uma comporta que despeja no coração uma enxurrada de emoções ou, por outro lado, pode ser, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A música, pelo menos para mim, funciona, em determinadas ocasiões, como um gatilho, disparando memórias, lembranças, fatos não ocorridos, embora desejados, vontades ilusórias de um passado incerto, enfim, abre portas de quartos, de porões, de armários.</p>
<p>Quando isso ocorre, é como uma comporta que despeja no coração uma enxurrada de emoções ou, por outro lado, pode ser, também, como uma rolha que é, cuidadosamente, retirada de uma garrafa deixando que o aroma forte permeie lentamente o ambiente. É uma sensação calma, embora angustiante, misturando nostalgias sem datas específicas, melancolias difusas, tristezas enevoadas.</p>
<p>Em muitos casos, a solidão, em qualquer de suas inúmeras facetas, se insinua, isso quando não é a causa primeira, marcando presença, firmando seu ponto, lembrando da inexorabilidade dos momentos a sós, nos quais somos nós contra nós mesmos. o que desejamos contra o que nos é oferecido, o que sentimos contra o que pensamos.</p>
<p>Se a letra da canção deixa, propositalmente, lacunas no sentido ou significado da mensagem, tudo está aberto à interpretação pelo imaginário, pelo inconsciente, por qualquer símbolo ou entidade interior que esteja à frente de nosso caminho, naquele momento. As palavras ouvidas ou lidas são decodificadas e incorporadas com uma carga de emoção talvez superior e desviada do que o autor tenha pensado, ao escrever.</p>
<p>Mas não interessa. A mensagem, depois de transmitida, não pertence mais ao autor e sim ao coração ou à mente de quem a recebe, passando a ser um pretexto para as próximas ações, independente de qualquer análise fria.</p>
<p>Sinceramente, não sei (e nem sei se gostaria de saber) da intenção de Paulo César Pinheiro, letrista da canção, ao escrever. Pode-se ler um protesto social , um lamento pelo fim de um amor, um grito suave de angústia pela incapacidade de mandarmos em nosso destino. A música de Eduardo Gudin foi muito valorizada pelo arranjo e interpretação do MPB-4.</p>
<p>Mordaça me faz, ao mesmo tempo, pensar e sentir. Pensar, tentando esmiuçar cada palavra, verso, estrofe em busca de referentes em minha própria vida. Sentir, absorvendo cada mensagem, subliminar ou não, tentando extrair da solidão do momento uma mordaça para a angústia primordial, veículo e causa dessa mesma solidão que se autoregenera e alimenta.</p>
<p>Mordaça é uma tentativa de luta, o que já é muito, mesmo que não seja bastante, mesmo que nem seja, mesmo assim.</p>
<p> </p>
<p>Mordaça<br />
(Eduardo Gudin &amp; Paulo César Pinheiro)</p>
<p>Tudo o que mais nos uniu separou<br />
Tudo que tudo exigiu renegou<br />
Da mesma forma que quis recusou<br />
O que torna essa luta impossível e passiva<br />
O mesmo alento que nos conduziu debandou<br />
Tudo que tudo assumiu desandou<br />
Tudo que se construiu desabou<br />
O que faz invencível a ação negativa</p>
<p>É provável que o tempo faça a ilusão recuar<br />
Pois tudo é instável e irregular<br />
E de repente o furor volta<br />
O interior todo se revolta<br />
E faz nossa força se agigantar</p>
<p>Mas só se a vida fluir sem se opor<br />
Mas só se o tempo seguir sem se impor<br />
Mas só se for seja lá como for<br />
O importante é que a nossa emoção sobreviva<br />
E a felicidade amordace essa dor secular<br />
Pois tudo no fundo é tão singular<br />
É resistir ao inexorável<br />
O coração fica insuperável<br />
E pode em vida imortalizar</p>
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		<title>Rosinha &#8211; Edu Lobo</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Oct 2009 22:53:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Um Barco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Havia algo de rural na modernidade brasileira de 1967. Claro, havia as Ligas Camponesas, movimentos de lavradores, protestos (que perduram até hoje, com outros rótulos), intensa atividade literária e musical, em clima de denúncias e de loas à liberdade. Peças, musicais, canções cantavam um Brasil do campo, do litoral de pescadores, até de caminhoneiros (pré [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Havia algo de rural na modernidade brasileira de 1967. Claro, havia as Ligas Camponesas, movimentos de lavradores, protestos (que perduram até hoje, com outros rótulos), intensa atividade literária e musical, em clima de denúncias e de loas à liberdade. Peças, musicais, canções cantavam um Brasil do campo, do litoral de pescadores, até de caminhoneiros (pré Roberto Carlos), num modernismo meio atávico e exótico, onde havia lugar, também, para cantar o amor.</p>
<p>A bossa nova já não atraía alguns compositores que a haviam abraçado, inicialmente, mas estavam mudando para um formato musical típico de festivais, com refrões fortes e de fácil memorização.</p>
<p>Um grupo enveredava pela música dita engajada, outro inventava o que viria a ser chamado de tropicalismo, arranjos sofisticados em contraste com uma linguagem popular, outro ainda buscava formas experimentais, pouco a pouco se afastando das harmonias tradicionais. Assim, era comum que num mesmo álbum, o artista ou compositor procurasse cobrir as várias tendências musicais.</p>
<p>Um exemplo disso é o álbum &#8220;Viola Enluarada&#8221;, de Marcos Valle, onde se poderia ouvir desde a canção-título, representativa de uma dessas novas tendências, até &#8220;Terra de Ninguém&#8221;, música de protesto rural, inspirada talvez pelas areias de Ipanema, passando por uma experimental &#8220;Próton Elétron Neutron&#8221;, por um frevo, &#8220;Pelas Ruas do Recife&#8221; e uma marcha lenta e triste &#8220;Bloco do Eu Sozinho&#8221;, esta objeto de um <a href="http://umbarco.blog.br/?p=29" target="_blank">post</a> deste Barco. Talvez um dos melhores álbuns da profícua carreira de Marcos Valle.</p>
<p>Em outra vertente, Edu Lobo, vencedor de festival em 1965 com uma canção de pescadores, &#8220;Arrastão&#8221;, também apresentada em <a href="http://umbarco.blog.br/caravelas/eueamusica2.html" target="_blank">outro post</a>. Na segunda metade de 1967, Edu Lobo, tendo como letrista Capinan,  um de seus parceiros constantes, ganharia mais um festival, dessa vez com &#8220;Ponteio&#8221;, outra canção que, usando elementos do interior do Brasil, trazia harmonia e arranjo sofisticados, mas que levantaram o público.</p>
<p>Ainda em 1967, lança um &#8220;LP&#8221;, &#8220;Edu&#8221;, onde mantinha uma unidade conceitual, abordando temas tradicionais e mostrando formas modernas de rítmos típicos, à semelhança do que fizera em &#8220;Ponteio&#8221;, na &#8220;Embolada&#8221; ou no &#8220;Chorinho de Mágoa&#8221;, sem esquecer um pouco de crítica social, embora disfarçada, no &#8220;Jogo de Roda&#8221;.</p>
<p>Desse álbum, escolhi &#8220;Rosinha&#8221;, música de Edu Lobo e letra de Capinam. &#8220;Rosinha&#8221; é, no meu modo de pensar e sentir, a idealização de um amor daqueles típicos dos adolescentes. A garota inatingível, o jeito ingênuo, tranças, a simplicidade dos gestos juvenis, tudo num cenário caracteristicamente rural.</p>
<p>O arranjo parece captar muito bem esse clima meio nostálgico, meio triste, meio melancólico. O solo inicial de trombone, como que antecipando o espírito da letra, a voz aveludada de Edu Lobo transmitindo o desalento. Até hoje ouço essa canção com ouvidos de adolescente e, de certa forma, me identificando com o jovem e seu amor não correspondido.</p>
<p>Rosinha<br />
(Edu Lobo &amp; Capinan)</p>
<p>Rosa vai com a sombrinha caminhando<br />
Pra onde Rosa caminha<br />
Lá vou eu me desviando<br />
Pra onde Rosa caminha<br />
Lá vou eu me desviando</p>
<p>Rosa trança e mal-me-quer<br />
O vento vai levantando<br />
Rosinha se não me quer<br />
Eu deixo a chuva te molhando<br />
Rosinha se não me quer<br />
Eu deixo a chuva te molhando</p>
<p>Rosa vai com a sombrinha<br />
Caminha sem responder<br />
Andorinha, pastorinha<br />
Eu tomo chuva por você</p>
<p>Vou na serra buscar flôres<br />
Mal-me-quer e girassol<br />
Prometi um passarinho<br />
Cardeal ou curió<br />
Prometi um passarinho<br />
Cardeal ou curió</p>
<p>Rosa vai com a sombrinha<br />
Rosa vai com o namorado<br />
Pra onde Rosa caminha<br />
Sigo eu abandonado<br />
Pra onde Rosa caminha<br />
Sigo eu abandonado</p>
<p>Ô Rosa&#8230;</p>
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		<title>Torpor</title>
		<link>http://umbarco.blog.br/?p=223</link>
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		<pubDate>Tue, 20 Oct 2009 23:31:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Um Barco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Nada assistir
Por não apreciar,
Não discernir,
Não enxergar.
Nada entender
Por não concordar,
Não perceber,
Não acatar.
Nada querer
Por não avocar,
Não exercer
Não se esforçar.
Nada assumir
Por não se engajar,
Não aderir,
Não confiar.
Nada sentir
Por não internar,
Não permitir,
Não aceitar.
Nada deixar
Por não construir,
Não afirmar
Não definir.
Nada esquecer
Por nada lembrar,
Nada valer,
Nada importar.
___________________________
Evangelho
(Paulo César Pinheiro &#38; Dori Caymmi)
Eta mundo que a nada se destina
Se maior se faz, mais se arruína
Se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nada assistir<br />
Por não apreciar,<br />
Não discernir,<br />
Não enxergar.</p>
<p>Nada entender<br />
Por não concordar,<br />
Não perceber,<br />
Não acatar.</p>
<p>Nada querer<br />
Por não avocar,<br />
Não exercer<br />
Não se esforçar.</p>
<p>Nada assumir<br />
Por não se engajar,<br />
Não aderir,<br />
Não confiar.</p>
<p>Nada sentir<br />
Por não internar,<br />
Não permitir,<br />
Não aceitar.</p>
<p>Nada deixar<br />
Por não construir,<br />
Não afirmar<br />
Não definir.</p>
<p>Nada esquecer<br />
Por nada lembrar,<br />
Nada valer,<br />
Nada importar.</p>
<p>___________________________</p>
<p>Evangelho<br />
(Paulo César Pinheiro &amp; Dori Caymmi)</p>
<p>Eta mundo que a nada se destina<br />
Se maior se faz, mais se arruína<br />
Se mais quer servir, mais nos domina<br />
Se mais vidas dá, são mais os danos<br />
Se mais deuses há, mais são profanos<br />
Estes pobres de nós seres humanos</p>
<p>Eta vida, essa vida de infelizes<br />
Quanto mais coração, mais cicatrizes<br />
No amor é que a dor cria raízes<br />
De dentro do bem é que o mal trama<br />
Da felicidade cresce o drama<br />
Dessas tristes de nós vidas humanas</p>
<p>Eta tempo que em pouco nos devora<br />
O pavio da vela apagará<br />
Quanto mais se partir tempos afora<br />
Mais nos tempos de agora se estará<br />
E mais tarde quando o tempo melhora<br />
A nossa mocidade onde andará?</p>
<p>Eta morte que acaba tempo e vida<br />
O mundo não conseguiu saída<br />
É o fim mas pode ser o começo<br />
Quem tenta fugir faz sempre o avesso<br />
E quanto mais vidas se cultiva<br />
Mais a morte alimenta a roda viva</p>
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		<item>
		<title>Um dia&#8230;</title>
		<link>http://umbarco.blog.br/?p=199</link>
		<comments>http://umbarco.blog.br/?p=199#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2009 00:46:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Um Barco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Digressões]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Um dia é uma vaga lembrança de um passado incerto e, por isso mesmo, confiável, na medida em que é hoje na mente o que desejamos e não o que efetivamente foi.
Um dia a casa não vai cair, não iremos mudar, nada houve.
Um dia é a consciência abafada pela percepção cotidiana e rotineira.
Um dia é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dia é uma vaga lembrança de um passado incerto e, por isso mesmo, confiável, na medida em que é hoje na mente o que desejamos e não o que efetivamente foi.</p>
<p>Um dia a casa não vai cair, não iremos mudar, nada houve.</p>
<p>Um dia é a consciência abafada pela percepção cotidiana e rotineira.</p>
<p>Um dia é o preço temporário pelo medo da noite ou o peso necessário para atravessar incólume a madrugada.</p>
<p>Um dia é a esperança tão raivosa quanto inútil de um desabafo, uma revolta contra aquilo que nos aflige, mesmo que só dependa de nós mesmos sua solução.</p>
<p>Um dia é um sonho possível, além da crua verdade que teimamos em ocultar de nós mesmos, mas é a impossibilidade assumida, porquanto atrelada a nossos receios, nossa incapacidade assumidas.</p>
<p>Um dia é uma mentira, uma ilusão vendida, uma realidade que não se concretiza aquém do desejo ou além do esperado.</p>
<p>Apesar de tudo, um dia sempre chega, aparece, acontece, ocorre, despenca, não importa qual seja sua manifestação, não importa o que trouxer, não importa.</p>
<p>Um dia, porém, é o aparecer repentino, o retorno prometido, a vontade finalmente satisfeita, o sorriso antes reprimido, agora liberto, o pranto alegre, a tentativa com sucesso.</p>
<p>&#8220;Um Dia&#8221;, além de tantos outros títulos, ou parte de títulos de músicas, é uma canção do Caetano Veloso, finalista do II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record de São Paulo, em outubro de 1966 e prêmio de melhor letra.</p>
<p>Em junho desse mesmo ano, no II Festival Nacional de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, Caetano logrou a quinta colocação com a música &#8220;Boa Palavra&#8221;, canção veladamente engajada.</p>
<p>Ambas as canções foram defendidas por Maria Odete, uma bonita cantora, de voz forte e interpretação um pouco empostada, porém bastante expressiva. Sobre sua interpretação de &#8220;Boa Palavra&#8221;, Zuza Homem de Mello em seu livro &#8220;A Era dos Festivais&#8221;,  relata que ela foi &#8220;&#8230;ovacionada entusiasticamente ao interpretar a curiosa melodia de Caetano Veloso, no arranjo de Antonio Adolfo, com uma garra impressionante, exagerada até sob certos aspectos, mas que fez vibrar a assistência&#8230;&#8221;.</p>
<p>Minha lembrança primeira de &#8220;Um Dia&#8221; é, justamente, na voz de Maria Odete, quando assisti à fita da final do festival. Posteriormente, a canção foi gravada por seu autor, mas com um arranjo bem diferente e que, confesso, não me agradou.</p>
<p>Deixo, abaixo, o vídeo do You Tube, trazendo a interpretação da final do festival. Nele, um Caetano Veloso quase juvenil e ainda não tropicalista mostra sua satisfação pelo êxito da canção que, infelizmente, foi esquecida, enquanto &#8220;Boa Palavra&#8221; seria gravada, posteriormente, por Elis Regina.</p>
<p> <br />
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="344" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/dqJcXdCox0E&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="344" src="http://www.youtube.com/v/dqJcXdCox0E&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
<p> </p>
<p>Um Dia<br />
(Caetano Veloso)</p>
<p>Como um dia, numa festa<br />
Realçavas a manhã<br />
Luz de sol, janela aberta<br />
Festa e verde o teu olhar</p>
<p>Pé de avenca na janela<br />
Brisa verde, verdejar<br />
Vê se alegra tudo agora<br />
Vê se pára de chorar</p>
<p>Abre os olhos, mostra o riso<br />
Quero, careço, preciso<br />
De ver você se alegrar</p>
<p>Eu não estou indo-me embora<br />
Estou só preparando a hora de voltar</p>
<p>No rastro do meu caminho<br />
No brilho longo dos trilhos<br />
Na correnteza do rio<br />
Vou voltando pra você</p>
<p>Na resistência do vento<br />
No tempo que vou e espero<br />
No braço, no pensamento<br />
Vou voltando pra você</p>
<p>No Raso da Catarina<br />
Nas águas de Amaralina<br />
Na calma da calmaria<br />
Longe do mar da Bahia<br />
Limite da minha vida<br />
Vou voltando pra você</p>
<p>Vou voltando, como um dia<br />
Realçavas a manhã<br />
Entre avencas, verde-brisa<br />
Tu de novo sorrirás</p>
<p>E eu te direi que um dia<br />
As estradas voltarão<br />
Voltarão trazendo todos<br />
Para a festa do lugar</p>
<p>Abre os olhos, mostra o riso<br />
Quero, careço, preciso<br />
De ver você se alegrar</p>
<p>Eu não estou indo-me embora<br />
Estou só preparando a hora de voltar</p>
]]></content:encoded>
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