Um Barco

terça-feira, 22 dezembro 2009

Não querer

Não quero mais, não quero!
Mas desejo, mesmo sem querer.
Não quero mais navegar,
Nos mares de meu desejo.

As pedras do jardim, não quero,
Nem os peixes que nadam e negam
Que desejo o que não quero,
Mesmo desejando, sem querer.

Não quero mais a lua branca,
Mas a desejo redonda, amarela,
Iluminando o que não mais quero
E o rubro desejo de querer mais.

Não mais à beira-mar.
Amar não quero, só desejo a espuma
Se espalhando em meu barco,
À beira de meu desejo.

Uma praça já não quero,
Nem banco ou carrocinha,
Mas desejo uma rua, reta,
Que me leva, leve e não me traz.

Não quero o rolar das pedras
Sopradas por ventos novos,
Mas desejo que brilhem os sons
Dos sinos da liberdade.

Quero mais, quero num bar,
Que meu desejo se molhe,
No mar de não mais querer,
No ato de beber, como quero!

Não quero, não por querer.
Desejo, não por querer.
Desejo, por não querer.
Não quero, por desejar.

Não quero, desejo, não…quero!

O Bem e o Mal
(Danilo Caymmi & Dudu Falcão)

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Eu guardo em mim dois corações
Um que é do mar, um das paixões
Um canto doce,
Um cheiro de temporal
Eu guardo em mim um Deus,
Um louco, um santo
Um bem e um mal

Eu guardo em mim tantas canções
De tanto mar, tantas manhãs
Encanto doce
O cheiro de um vendaval
Guardo em mim
O Deus, o louco, o santo
O bem e o mal

Eu guardo em mim tantas canções
De tanto mar, tantas manhãs
Encanto doce
O cheiro de um vendaval
Guardo em mim
O Deus, o louco, o santo
O bem e o mal

Arquivado em: Música, Poesia — Um Barco @ 5:03 pm

quarta-feira, 9 dezembro 2009

E no mais?

No mais? No mais é isso…

Indo, às vezes navegando, em outras conduzido ou arrastado pela corrente diária do cotidiano, quando não despencando em alguma cachoeira mas, pelo menos, indo. Melhor que a tranquilidade ilusória dos lagos calmos nos quais abrimos mão das emoções em prol de uma paz que, na verdade, esconde o conformismo e a condescendência.

No mais, é querer sentir que ainda há uma vontade, oculta ou não, um desejo, qualquer coisa que diferencie aceitação de satisfação, responsabilidade de receio, vontade de hábito.

No mais, conciliar ou tentar harmonizar sentir e pensar, sabendo da impossibilidade disso, pelo menos num nível que não pareça, mesmo de fato sendo, que estamos querendo nos enganar. Olhar em volta e ver que tudo, bem sabemos, não passa de formas distintas da mesma coisa, o que não nos impede de ter a ilusão de um novo inexistente, a não ser em nossas fantasias e esperanças.

No mais, o olhar perdido nas paredes, vazio, mais por não saber como, do que não ter o que olhar, por não reconhecer ou não aceitar, daí a visão de um vácuo infinito, que preenchemos com o que resta de nossas quimeras.

No mais, as alegrias já conhecidas e repetidas, algumas até esperadas, apreciadas pelo que são e não pelo que representam, por nos trazer aquela esperança de uma próxima vez, cada vez mais próxima da última, o que as faz mais raras.

No mais, presenças amigas, desinteressadas de qualquer coisa que não seja a proximidade, a troca, o compartilhamento de solidões, iguais na forma, mesmo que não o sejam nas causas, sensação de se reconhecer no outro, espelho indefinido e fiel.

No mais, é tudo aquilo em que não pensamos, por já estar incorporado à rotina, coisas boas, pequenos prazeres, um gole de vinho ou cerveja com amigos, uma canção que toca em alguma corda interna, um sorriso lido ou imaginado num rosto até desconhecido, mas querido, a paz de árvores em dias sem vento.

No mais, a noite, sempre ela, embalando lembranças, acolhendo vontades, iludindo razões, cobrando atos para, ao acordar, devolver tudo em forma de nós desatados, farrapos de sonhos, realidades equivocadas.

Pensando bem, no mais é, na verdade, muito menos do que queremos crer, muito embora seu peso pareça nos esmagar, nos curtos intervalos da vida, em que nos confrontamos com a natureza fluida das aspirações distantes.

Pensando melhor, no mais, tudo bem…

A Noite
(Ivan Lins & Vítor Martins)

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A noite tem bordado
Nas toalhas dos bares
Corações arpoados
Corações torturados
Corações de ressaca
Corações desabrigados demais

A noite tem falado
Nas cadeiras dos bares
De paixões afogadas
De paixões recusadas
De paixões descabidas
De paixões envelhecidas demais

A noite traz no rosto sinais
De quem tem chorado demais

A noite tem deixado
Seus rancores gravados
À faca e canivete
À lápis e gilette
Por dentro das pessoas
Por dentro dos toilettes e mais
Por dentro de mim

Arquivado em: Música, Prosa — Um Barco @ 7:27 pm

domingo, 22 novembro 2009

Qualquer hora

Qualquer hora o tempo cai
Como uma vontade atrasada,
Mentira desmascarada,
Que nem quarta-feira de cinzas,
Lua cheia, delírio real.

E vai ser como uma enchente,
Inundando a vida com dias,
Misturando instantes, momentos,
Estantes de velharias, modernas
Lembranças, crescente.

E a fantasia, nova, escondida,
Enfim escancarada, explode, solta
Nos rostos risadas, palhaças,
Deformando dores, tristezas
Em prazeres, belezas, falsas.

Numa mistura estranha,
De mente e coração, há vida
Inteligente no peito, que mente,
E nem se enxergava, antes,
Não percebia, só mandava.

E o que parecia, não é
Senão a sombra atirada
No chão, descartada, minguante
De toda penumbra, de luz
No corpo desenhada, sem fé.

No fim do túnel, esperança
Nem há, nem túnel tem, fim
Do instante, da fase, da hora
Emprestada, imposta, imprestável
Alegoria, findou.

Qualquer tempo, chega o fato,
Como uma ressaca curtida,
Verdade de novo assumida
Como primeiro de abril,
Depois que acaba, resta a vida.

 

Olha a Lua
(John Neschling & Geraldo Carneiro)

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Olha a lua
Minha doida
Minha triste colombina
Conta por que sofres tanto assim
Será que é pouca
A minha alma louca de arlequim
Dentro de mim
Um sonho danado de viver embriagado
Pelo lado avesso

Olha a lua
Antes que ela vá pra trás do edifício
Não, não tenha medo de falar do teu segredo
De contar, na escuridão
As penas do teu coração

Pensa na dor que mora em mim
Fatal
Sem começo e sem fim
Eu só quero te encontrar
Pra te ver e te amparar

Olha a lua
Minha doida
Minha colombina lua
Sofre a tua negra solidão
E sonha fundo
Porque esse mundo é feito de ilusão
O teu coração é um pouco demente
E a loucura da gente não tem céu nem inferno

Olha a lua
Minha doida
Minha colombina lua
Não, não tenha medo de falar do teu segredo
De contar na escuridão
As penas do teu coração

Arquivado em: Música, Poesia — Um Barco @ 9:41 pm

sexta-feira, 13 novembro 2009

Mordaça – MPB4

A música, pelo menos para mim, funciona, em determinadas ocasiões, como um gatilho, disparando memórias, lembranças, fatos não ocorridos, embora desejados, vontades ilusórias de um passado incerto, enfim, abre portas de quartos, de porões, de armários.

Quando isso ocorre, é como uma comporta que despeja no coração uma enxurrada de emoções ou, por outro lado, pode ser, também, como uma rolha que é, cuidadosamente, retirada de uma garrafa deixando que o aroma forte permeie lentamente o ambiente. É uma sensação calma, embora angustiante, misturando nostalgias sem datas específicas, melancolias difusas, tristezas enevoadas.

Em muitos casos, a solidão, em qualquer de suas inúmeras facetas, se insinua, isso quando não é a causa primeira, marcando presença, firmando seu ponto, lembrando da inexorabilidade dos momentos a sós, nos quais somos nós contra nós mesmos. o que desejamos contra o que nos é oferecido, o que sentimos contra o que pensamos.

Se a letra da canção deixa, propositalmente, lacunas no sentido ou significado da mensagem, tudo está aberto à interpretação pelo imaginário, pelo inconsciente, por qualquer símbolo ou entidade interior que esteja à frente de nosso caminho, naquele momento. As palavras ouvidas ou lidas são decodificadas e incorporadas com uma carga de emoção talvez superior e desviada do que o autor tenha pensado, ao escrever.

Mas não interessa. A mensagem, depois de transmitida, não pertence mais ao autor e sim ao coração ou à mente de quem a recebe, passando a ser um pretexto para as próximas ações, independente de qualquer análise fria.

Sinceramente, não sei (e nem sei se gostaria de saber) da intenção de Paulo César Pinheiro, letrista da canção, ao escrever. Pode-se ler um protesto social , um lamento pelo fim de um amor, um grito suave de angústia pela incapacidade de mandarmos em nosso destino. A música de Eduardo Gudin foi muito valorizada pelo arranjo e interpretação do MPB-4.

Mordaça me faz, ao mesmo tempo, pensar e sentir. Pensar, tentando esmiuçar cada palavra, verso, estrofe em busca de referentes em minha própria vida. Sentir, absorvendo cada mensagem, subliminar ou não, tentando extrair da solidão do momento uma mordaça para a angústia primordial, veículo e causa dessa mesma solidão que se autoregenera e alimenta.

Mordaça é uma tentativa de luta, o que já é muito, mesmo que não seja bastante, mesmo que nem seja, mesmo assim.

 

Mordaça
(Eduardo Gudin & Paulo César Pinheiro)

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Tudo o que mais nos uniu separou
Tudo que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e passiva
O mesmo alento que nos conduziu debandou
Tudo que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação negativa

É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar

Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva
E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar

Arquivado em: Digressões, Música — Um Barco @ 7:23 pm

quinta-feira, 29 outubro 2009

Rosinha – Edu Lobo

Havia algo de rural na modernidade brasileira de 1967. Claro, havia as Ligas Camponesas, movimentos de lavradores, protestos (que perduram até hoje, com outros rótulos), intensa atividade literária e musical, em clima de denúncias e de loas à liberdade. Peças, musicais, canções cantavam um Brasil do campo, do litoral de pescadores, até de caminhoneiros (pré Roberto Carlos), num modernismo meio atávico e exótico, onde havia lugar, também, para cantar o amor.

A bossa nova já não atraía alguns compositores que a haviam abraçado, inicialmente, mas estavam mudando para um formato musical típico de festivais, com refrões fortes e de fácil memorização.

Um grupo enveredava pela música dita engajada, outro inventava o que viria a ser chamado de tropicalismo, arranjos sofisticados em contraste com uma linguagem popular, outro ainda buscava formas experimentais, pouco a pouco se afastando das harmonias tradicionais. Assim, era comum que num mesmo álbum, o artista ou compositor procurasse cobrir as várias tendências musicais.

Um exemplo disso é o álbum “Viola Enluarada”, de Marcos Valle, onde se poderia ouvir desde a canção-título, representativa de uma dessas novas tendências, até “Terra de Ninguém”, música de protesto rural, inspirada talvez pelas areias de Ipanema, passando por uma experimental “Próton Elétron Neutron”, por um frevo, “Pelas Ruas do Recife” e uma marcha lenta e triste “Bloco do Eu Sozinho”, esta objeto de um post deste Barco. Talvez um dos melhores álbuns da profícua carreira de Marcos Valle.

Em outra vertente, Edu Lobo, vencedor de festival em 1965 com uma canção de pescadores, “Arrastão”, também apresentada em outro post. Na segunda metade de 1967, Edu Lobo, tendo como letrista Capinan, um de seus parceiros constantes, ganharia mais um festival, dessa vez com “Ponteio”, outra canção que, usando elementos do interior do Brasil, trazia harmonia e arranjo sofisticados, mas que levantaram o público.

Ainda em 1967, lança um “LP”, “Edu”, onde mantinha uma unidade conceitual, abordando temas tradicionais e mostrando formas modernas de rítmos típicos, à semelhança do que fizera em “Ponteio”, na “Embolada” ou no “Chorinho de Mágoa”, sem esquecer um pouco de crítica social, embora disfarçada, no “Jogo de Roda”.

Desse álbum, escolhi “Rosinha”, música de Edu Lobo e letra de Capinam. “Rosinha” é, no meu modo de pensar e sentir, a idealização de um amor daqueles típicos dos adolescentes. A garota inatingível, o jeito ingênuo, tranças, a simplicidade dos gestos juvenis, tudo num cenário caracteristicamente rural.

O arranjo parece captar muito bem esse clima meio nostálgico, meio triste, meio melancólico. O solo inicial de trombone, como que antecipando o espírito da letra, a voz aveludada de Edu Lobo transmitindo o desalento. Até hoje ouço essa canção com ouvidos de adolescente e, de certa forma, me identificando com o jovem e seu amor não correspondido.

Rosinha
(Edu Lobo & Capinan)

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Rosa vai com a sombrinha caminhando
Pra onde Rosa caminha
Lá vou eu me desviando
Pra onde Rosa caminha
Lá vou eu me desviando

Rosa trança e mal-me-quer
O vento vai levantando
Rosinha se não me quer
Eu deixo a chuva te molhando
Rosinha se não me quer
Eu deixo a chuva te molhando

Rosa vai com a sombrinha
Caminha sem responder
Andorinha, pastorinha
Eu tomo chuva por você

Vou na serra buscar flôres
Mal-me-quer e girassol
Prometi um passarinho
Cardeal ou curió
Prometi um passarinho
Cardeal ou curió

Rosa vai com a sombrinha
Rosa vai com o namorado
Pra onde Rosa caminha
Sigo eu abandonado
Pra onde Rosa caminha
Sigo eu abandonado

Ô Rosa…

Arquivado em: Música — Um Barco @ 8:53 pm
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