Um Barco

quinta-feira, 26 agosto 2004

Navegar em círculos…

Quantos albuns de retratos em branco e preto já organizamos, com instantâneos infelizes de nossa vida? Quantas vezes pronunciamos, até enfaticamente, aquela expressão emblemática “nunca mais!” para, dali a algum tempo embarcar numa viagem cujo destino antevemos, mas seguimos assim mesmo, porque o momento nos exige, nós nos exigimos?
É da natureza humana a repetição voluntária de ações com a conseqüente tomada de decisão que, sabemos, nos conduzirá a um mergulho melancólico interior, quando não na nossa tristeza abissal.
O que importa é o momento, o imediatismo de uma alegria fugaz (mas não vã): uma compra precipitada, a discussão impensada, a satisfação de um desejo.
Após o mergulho, a emersão, a recomposição, a necessidade, a ação.
E isso não chega a ser trágico, já faz parte de nosso código de vida, é nossa rede privada, a nos enredar e a nos direcionar. E é bom, quando é satisfatório.
Somos cíclicos, queiramos ou não. Circulares, num cotidiano seguro mas insatisfatório ou ondulatórios, com picos e vales de ânimo.
Essa reflexão me veio com a leitura do post de Loba. No comentário que fiz, disse-lhe que ela conheceria essa música, cíclica, mas que traz uma mensagem de renascimento, a emersão após o mergulho, o início de um novo ciclo.

Passacalha
(Edino Krieger e Vinicius de Moraes)

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Nasci
Andei
Fugi
Voltei
Sorri
Chorei
Amei
Morri

Nasci – No mundo me encontrei
Andei – No sonho me perdi
Fugi – Na estrada me cansei
Voltei – Sozinho me senti
Sorri – Pra não chorar cantei
Chorei – Do tempo esqueci
Amei – E a esperar fiquei
Morri – Pelo sol de um novo canto

Cantando assim andei
Andando assim fugi
Fugindo assim voltei
Voltando assim sorri
Sorrindo assim chorei
Chorando assim amei
Amando assim eu morri

Morrendo assim foi que eu nasci
Pra andar, pra fugir, pra voltar
Pra sorrir, pra chorar, pra amar
Sempre assim

Rumo sem fim, dentro de mim
Pela estrada é noite, é madrugada
E eu vou seguir cantando
Quando eu nascer outra vez
Vou andar outra vez
Meu caminho na esperança
De um novo dia que vai despontar
Na manhã menina eu sou criança

Uma explicação adicional. Não tenho certeza, mas creio que havia uma letra original do próprio compositor Edino Krieger que foi, posteriormente, alterada (para melhor) por Vinicius de Moraes, neste arranjo.

Arquivado em: Prosa — Um Barco @ 10:38 pm

segunda-feira, 23 agosto 2004

Mar Grande

Nem sempre se escolhe o caminho.
Quando se escolhe, nem sempre é o melhor
Por mais que pareça, e nunca é demais
Quando muito, é o que é
E é tudo que se tem, opção.

Estradas,
Curvas escondidas, retas monótonas, cotidianas
Ladeiras íngremes, descidas velozes, emoções.
Trilhos, urbanos na maioria,
Desencontrados e curtos,
Estações, momentos, finais de linha, destino.

Mares, caminhos ondulados
Altos e baixos, calmarias e ondas,
Vagas, numa vida vaga
Sol e chuva, canto, pranto, cantochão.
E se vaga, navega,
E se espera, desespera
E se anda, desanda
E se inflama, chama, ama
E se chega.
Onde?

 

Mar Grande
(Paulinho da Viola e Sérgio Natureza)

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Se navegar no vazio
É mesmo o destino do meu coração
Parto pra ser esquecido
Navio perdido na imensidão

Lobo do mar, timoneiro
Me leve pro sol, quero outro verão
Não quero mar de marola
Das praias da moda na rebentação

Quero mar alto, o mar grande
Por favor não me mande de volta mais não
Não quero o cais, outro porto,
Não mais o mar morto da minha ilusão

Prefiro ir à deriva
Me deixe que eu siga em qualquer direção
Se eu sou de um rio marinho
O mar é meu ninho, meu leito e meu chão

Arquivado em: Música, Poesia — Um Barco @ 9:14 pm

domingo, 1 agosto 2004

Sobre o difuso…

Apesar da formação profissional me direcionar ao cartesiano, confesso que gosto do difuso, do incerto, do apenas sugerido.

Me agrada a obra aberta, inacabada, a palavra que sugere mais do que explica, o símbolo que instiga mais do que revela.

Gosto da imagem enevoada, impressionista, detalhes (aparentemente) desfocados que, com a distância, ganham contornos nítidos e luminosos. Negação do conhecimento pela proximidade.

Aprecio a arte que deixa a interpretação inteiramente a meu cargo. A obra me indica caminhos, tendências. Escolho o significado que quero, de acordo com o que sinto na ocasião.

Que eu não seja, por favor, rotulado de elitista ou purista. Nada do que declarei exclui o figurativo, o claro, o fechado. Um soneto, de métrica clássica, uma música de polifonia clara, um romance com final determinado também me agradam. O que desejei transmitir foi minha preferência genérica pela sutileza.

Já vi e ouvi muitos experimentalismos na década de 60 para me impressionar facilmente com propostas que se dizem “avançadas” ou “transgressoras”.

Gosto, especialmente, de letras de músicas que possuem viés simbolista ou aberto, bem como daquelas que nada dizem, mas carregam uma sonoridade forte, pelas palavras usadas.

Atentem para a letra de “Açaí”, de Djavan. Nenhum sentido aparente nas palavras, entretanto, principalmente na gravação de Gal Costa, uma enorme musicalidade, casamento de letra, música, ritmo.

Há muito de simbolismo nas primeiras letras de Caetano Veloso, infelizmente pouco conhecidas, já que antecedem “Alegria, Alegria”, música que o tornou famoso.

Poderia escolher letras de Caetano, como “Um Dia”, “Boa Palavra” ou “Clara”, para ilustrar o post e minha preferência pelo difuso, mas optei por Jessé cantando a música “Era Um Dia” (não confundir com outra música gravada por ele, “Um dia…”).

Era um Dia
(Oswaldo Montenegro)

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Era um dia de manhã
Como nos dias de manhã se pode ser
Claro como um dia claro
É como a gente,
É pouco mais do que ser claro
É o que se pode ser

Avalia o coração
Como teu coração também se julga ser
Forte como a chuva é forte
É como a gente,
É pouco mais do que ser forte
É o que se pode ser

Era tudo como tudo
É como se pudesse resultar em nada
Ah eu tenho medo pelo nosso amor
E como o dia amanhecer

Era tudo como tudo
É como se pudesse resultar em nada
Ah eu tenho medo, como se pode ter medo
Quando está feliz

Arquivado em: Digressões, Música — Um Barco @ 11:35 am

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