Um Barco

terça-feira, 29 junho 2004

Fragmentos…

Não me perguntem, não saberia explicar. De repente, não menos que de repente, já que o acaso (e sua companheira, a necessidade) é forte o bastante para predominar sobre o estudado, o pensado, o premeditado, me veio à mente os “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, de Roland Barthes.

E me vejo reabrindo o livro, folheando-o, já pensando num post para um blog esquecido por sete dias.

E a cada leitura me espanta constatar que palavras escritas ou pelo menos publicadas em 1977 possam ser tão bem contextualizadas na comunicação virtual de 2004, as salas de chat e os programas de comunicação instantânea.

E deixo alguns fragmentos dos “Fragmentos”, ao som de uma música que, não por acaso, tem o nome de “Bard” (bardo).

“A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção vem de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade de discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é “eu te desejo”, e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza ao tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação “.

“Uma força precisa arasta minha linguagem em direção ao mal que posso fazer a mim mesmo: o regime motor de meu discurso é a roda livre, a linguagem vai girando, sem nenhum pensamento tático da realidade.”

“Apesar de o discurso amoroso não ser mais do que uma nuvem de figuras que se agitam segundo uma ordem imprevisível, como as trajetórias de uma mosca no interior de um quarto, posso atribuir ao amor, pelo menos retrospectivamente, imaginariamente, uma progressão regrada; é por esse fantasma histórico que por vezes o transformo em uma aventura.”

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Arquivado em: Prosa — Um Barco @ 9:16 pm

terça-feira, 22 junho 2004

Resto de Tristeza

Resto de tristeza, fique onde está, aí no fundo de mim. Não me deixe agora, pois a ilusão, aquela enganadora, tentará tomar seu lugar, trazendo sonhos, anseios, vontades e outros de seus, nem sempre desejáveis, companheiros.

Resto de tristeza, não saia, senão a felicidade vai querer ocupar seu espaço, juntando-se à ilusão em algo tão sólido, que desmanchará, ao primeiro desengano.

Resto de tristeza, você é meu vínculo com a realidade, me lembrando que, mesmo estando feliz, a vida é um colcha de retalhos costurada pelo tempo, com cada pedaço de emoção que sentimos.

Resto de tristeza, não cresça muito. Fique assim mesmo, pequena o suficiente para ser notada, porém não tão grande que ocupe todo meu sentimento.

Resto de tristeza, conviva em paz com o resto de alegria que teima em querer entrar, até quando não espero, insinuando-se através de meus olhos, cada vez que paro de olhar para dentro de mim e enxergo o mundo ao meu redor.

Resto de tristeza, tempere meu riso, fazendo com que outros leiam em meu rosto o equilíbrio, mesmo que não haja.

Resto de tristeza, resto de alegria, perfumem meu ânimo, temperem minha calma a cada instante e se transformem em serenidade, irmã gêmea da paz.

Arquivado em: Prosa — Um Barco @ 6:40 pm

sábado, 12 junho 2004

Desencontros…

Uma sala de chat, uma frase mal colocada ou impensada, uma resposta dura, apesar de verdadeira…desencontro…uma idéia para um post.
É para este tipo de desencontro que este post é dedicado. Aquele que parte de pressupostos errados, de interpretações equivocadas, de idéias cristalizadas tudo isso em confronto com a(o) outro(a) que, pelo menos naquele momento, naquele contexto, pensa diferente, interpreta com seus códigos, a partir de seus próprios paradigmas. E dá-se o choque.
Daí em diante, um vácuo que, se não prontamente preenchido (e consegui preenchê-lo, no chat), a separação, o desencontro.
Tantas e tantas músicas falam disso, mas, e até na contra-mão do título deste post, busquei uma canção que resgata, no final, a união.
Chama-se “Fuga e Antifuga”, música de Edino Krieger e letra de Vinicius de Moraes.
Tentei separar as partes, masculina e feminina, para facilitar a leitura.

Fuga e Antifuga
(Edino Krieger & Vinicius de Moraes)

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Mulher
Homem

 
 
A viver o que existe
E que é só tristeza
É melhor já ser triste
Que não ter o que esperar

 
A esperança resiste É uma ilusão
A qualquer incerteza Desilusão
A suprema pobreza Da solidão
É não ter o que esperar  
   
 
É melhor desesperar,
É melhor desconhecer
É melhor desenganar
O coração que vai sofrer

 
Só o amor nos eleva É um adeus que nunca finda
Só o amor nos exalta Ai quem me dera o esquecimento
Sempre que ele nos falta É tão grande o sofrimento
Quem atende é a solidão  

 
  Ó tristeza infinita
Deixa em mim teu desespero  
  Que não há quem conforte
Um dia chega a primavera  
  O amor é a morte
Só a ti minha vida espera  
  É o céu da solidão

 

Vem sem mágoa e sem adeus
Vem banhar-te em minha luz
Vem plantar a tua cruz
Dentro da cruz dos braços meus, ó vem amar
 

 

E quando eu quiser partir
Quando a noite me chamar
Quando o sonho me vier

 

Saberei te compreender,
consolar, aquecer, perdoar, redimir
Sou mulher pra te adorar

Sou mulher pra te encontrar,
Sou mulher pra te perder
Sou mulher pra te ofertar
Tudo que é lindo no meu ser
Pra te amar até morrer

 
Ó amor infinito
Meu amado senhor
Pode vir na certeza
Matar minha sede de amor
Nunca mais a tristeza
Amor vem plantar tua cruz
Quero amar sem mais adeus nos braços teus Quero amar sem mais adeus nos braços teus

 

Meu amor infinito
Vamos juntos embora
Na esperança da aurora
Que da noite vai raiar

Meu amor infinito
Meu amor vem amar
Vem amar, meu amor
Meu amor
vai raiar o infinito
Sem tempo de adeus
Meu amor vem aos braços meus
Arquivado em: Digressões, Música — Um Barco @ 10:28 am

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