Um Barco

domingo, 6 junho 2010

Águas Passadas – Eduardo Gudin

Águas não passam. Escoam, resvalam, encharcam, meio assim como as ondas de melancolia que louvam a tristeza e levam a paz, aquela paz crônica, embora esquecida, encruada, reprimida mas nunca contida o suficiente para ficar quieta no fundo da memória aparentemente enganada.

Águas passadas movem moinhos de lembranças, alguns dos quais escondidos, abandonados, até o instante em que um gatilho qualquer dispare aquele traço de memória que, contra nossa vontade, abre comportas e fazem a roda girar, moendo nosso silêncio, revivendo ruídos, mostrando caminhos não percorridos, decisões não tomadas, arrependimentos cristalizados.

Nossos caminhos são nossos destinos de cada momento. Nossos momentos são nossa direção, a cada contato. Nossos contatos são nosso alimento, a cada vontade. Nossa vontade é uma bússola que nunca aponta o norte de nossa necessidade. Resvala rápido sem que se possa capturar o rumo certo.

E, como na canção,  mágoas antigas não passam, como as águas que passam, como o tempo que passa. Resta sorrir, suportando.

Águas Passadas
(Eduardo Gudin & Roberto Riberti)

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Bem te queria poupar,
Não falar dessa dor traiçoeira
Mas como calar quando dessa maneira
A tristeza vem me atormentar,
Mas pra que te magoar.
Se nem sei se será passageira
Ou terei que fugir, que sofrer, que chorar
Ou só terei que ver essa onda me levar

Eu só queria poder separar
Nosso amor dessa antiga ferida
Prá não machucar um começo de vida
E assim te sentir me levar e poder descansar
O meu corpo e minha alma sofrida
E sorrir sem lembrar, sem trair, sem negar
E assim só me deixar te viver e navegar

Eu gasto a vida e não vou entender
Que a mágoa antiga não vai se curar
E nada vai lhe conter
Terei que só suportar
Esperar, conservar um sorriso no olhar.

Filed under: Música,Prosa — Um Barco @ 9:44 pm

quarta-feira, 14 abril 2010

Percepção

Agora percebo
Se não claramente,
Mais facilmente, mais forte,
A presença fria e muda
Da soma de meus silêncios,
Da diferença de meus tempos,
Meus quantos, meus quases,
Meus já não distantes limites,
Meu cálice de anseios,
Meu pão que não sacia
Embora ainda queira
Ir, embora, do que não sou.

Agora, só agora…
Mas ainda cedo bastante
Para emergir dos sonhos fáceis,
Do sorriso contumaz e frio,
Das comparações vazias,
De tudo que se mostra óbvio,
Justamente por não ser, não passar
De mera percepção, imagem
Revelada na consciência,
Irrealidade subjetiva, falsa,
Tão forte e por tanto tempo
Que nada deixou, senão ausência.

Agora sim, sinto
Se não tão fortemente,
Mais docemente, mais mansa,
A ausência morna e gritante
Dos sonhos do ontem, bem longe.
A realidade vizinha, amiga,
Da soma de meus futuros,
Meus parcos, meus muitos,
Meus poucos, meus todos
Instantes ainda ativos, plenos,
Vívido cenário, vivo, presente.
Vivo mais, ainda mais vivo.

 

O Jeito de Viver
(Sá & Guarabyra)

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Eu ainda sou aquele sonhador
Desculpe se o que sinto é muito antigo
Desculpe o que eu fizer que é por amor
Eu ainda vivo no mundo da lua
Fazendo planos simples pro futuro

Eu na verdade sou um menestrel medieval
Assombrado por imagens de televisão
Assustado pelas coisas que acontecem
Dentro do meu coração
Por isso eu penso que essas coisas
Não deviam ser como elas são

Eu ainda estou querendo descobrir
Um jeito de mostrar meu sentimento
Um jeito claro e simples de viver
Sem precisar fingir

Filed under: Música,Poesia — Um Barco @ 10:35 pm

terça-feira, 22 dezembro 2009

Não querer

Não quero mais, não quero!
Mas desejo, mesmo sem querer.
Não quero mais navegar,
Nos mares de meu desejo.

As pedras do jardim, não quero,
Nem os peixes que nadam e negam
Que desejo o que não quero,
Mesmo desejando, sem querer.

Não quero mais a lua branca,
Mas a desejo redonda, amarela,
Iluminando o que não mais quero
E o rubro desejo de querer mais.

Não mais à beira-mar.
Amar não quero, só desejo a espuma
Se espalhando em meu barco,
À beira de meu desejo.

Uma praça já não quero,
Nem banco ou carrocinha,
Mas desejo uma rua, reta,
Que me leva, leve e não me traz.

Não quero o rolar das pedras
Sopradas por ventos novos,
Mas desejo que brilhem os sons
Dos sinos da liberdade.

Quero mais, quero num bar,
Que meu desejo se molhe,
No mar de não mais querer,
No ato de beber, como quero!

Não quero, não por querer.
Desejo, não por querer.
Desejo, por não querer.
Não quero, por desejar.

Não quero, desejo, não…quero!

O Bem e o Mal
(Danilo Caymmi & Dudu Falcão)

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Eu guardo em mim dois corações
Um que é do mar, um das paixões
Um canto doce,
Um cheiro de temporal
Eu guardo em mim um Deus,
Um louco, um santo
Um bem e um mal

Eu guardo em mim tantas canções
De tanto mar, tantas manhãs
Encanto doce
O cheiro de um vendaval
Guardo em mim
O Deus, o louco, o santo
O bem e o mal

Eu guardo em mim tantas canções
De tanto mar, tantas manhãs
Encanto doce
O cheiro de um vendaval
Guardo em mim
O Deus, o louco, o santo
O bem e o mal

Filed under: Música,Poesia — Um Barco @ 5:03 pm

quarta-feira, 9 dezembro 2009

E no mais?

No mais? No mais é isso…

Indo, às vezes navegando, em outras conduzido ou arrastado pela corrente diária do cotidiano, quando não despencando em alguma cachoeira mas, pelo menos, indo. Melhor que a tranquilidade ilusória dos lagos calmos nos quais abrimos mão das emoções em prol de uma paz que, na verdade, esconde o conformismo e a condescendência.

No mais, é querer sentir que ainda há uma vontade, oculta ou não, um desejo, qualquer coisa que diferencie aceitação de satisfação, responsabilidade de receio, vontade de hábito.

No mais, conciliar ou tentar harmonizar sentir e pensar, sabendo da impossibilidade disso, pelo menos num nível que não pareça, mesmo de fato sendo, que estamos querendo nos enganar. Olhar em volta e ver que tudo, bem sabemos, não passa de formas distintas da mesma coisa, o que não nos impede de ter a ilusão de um novo inexistente, a não ser em nossas fantasias e esperanças.

No mais, o olhar perdido nas paredes, vazio, mais por não saber como, do que não ter o que olhar, por não reconhecer ou não aceitar, daí a visão de um vácuo infinito, que preenchemos com o que resta de nossas quimeras.

No mais, as alegrias já conhecidas e repetidas, algumas até esperadas, apreciadas pelo que são e não pelo que representam, por nos trazer aquela esperança de uma próxima vez, cada vez mais próxima da última, o que as faz mais raras.

No mais, presenças amigas, desinteressadas de qualquer coisa que não seja a proximidade, a troca, o compartilhamento de solidões, iguais na forma, mesmo que não o sejam nas causas, sensação de se reconhecer no outro, espelho indefinido e fiel.

No mais, é tudo aquilo em que não pensamos, por já estar incorporado à rotina, coisas boas, pequenos prazeres, um gole de vinho ou cerveja com amigos, uma canção que toca em alguma corda interna, um sorriso lido ou imaginado num rosto até desconhecido, mas querido, a paz de árvores em dias sem vento.

No mais, a noite, sempre ela, embalando lembranças, acolhendo vontades, iludindo razões, cobrando atos para, ao acordar, devolver tudo em forma de nós desatados, farrapos de sonhos, realidades equivocadas.

Pensando bem, no mais é, na verdade, muito menos do que queremos crer, muito embora seu peso pareça nos esmagar, nos curtos intervalos da vida, em que nos confrontamos com a natureza fluida das aspirações distantes.

Pensando melhor, no mais, tudo bem…

A Noite
(Ivan Lins & Vítor Martins)

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A noite tem bordado
Nas toalhas dos bares
Corações arpoados
Corações torturados
Corações de ressaca
Corações desabrigados demais

A noite tem falado
Nas cadeiras dos bares
De paixões afogadas
De paixões recusadas
De paixões descabidas
De paixões envelhecidas demais

A noite traz no rosto sinais
De quem tem chorado demais

A noite tem deixado
Seus rancores gravados
À faca e canivete
À lápis e gilette
Por dentro das pessoas
Por dentro dos toilettes e mais
Por dentro de mim

Filed under: Música,Prosa — Um Barco @ 7:27 pm

domingo, 22 novembro 2009

Qualquer hora

Qualquer hora o tempo cai
Como uma vontade atrasada,
Mentira desmascarada,
Que nem quarta-feira de cinzas,
Lua cheia, delírio real.

E vai ser como uma enchente,
Inundando a vida com dias,
Misturando instantes, momentos,
Estantes de velharias, modernas
Lembranças, crescente.

E a fantasia, nova, escondida,
Enfim escancarada, explode, solta
Nos rostos risadas, palhaças,
Deformando dores, tristezas
Em prazeres, belezas, falsas.

Numa mistura estranha,
De mente e coração, há vida
Inteligente no peito, que mente,
E nem se enxergava, antes,
Não percebia, só mandava.

E o que parecia, não é
Senão a sombra atirada
No chão, descartada, minguante
De toda penumbra, de luz
No corpo desenhada, sem fé.

No fim do túnel, esperança
Nem há, nem túnel tem, fim
Do instante, da fase, da hora
Emprestada, imposta, imprestável
Alegoria, findou.

Qualquer tempo, chega o fato,
Como uma ressaca curtida,
Verdade de novo assumida
Como primeiro de abril,
Depois que acaba, resta a vida.

 

Olha a Lua
(John Neschling & Geraldo Carneiro)

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Olha a lua
Minha doida
Minha triste colombina
Conta por que sofres tanto assim
Será que é pouca
A minha alma louca de arlequim
Dentro de mim
Um sonho danado de viver embriagado
Pelo lado avesso

Olha a lua
Antes que ela vá pra trás do edifício
Não, não tenha medo de falar do teu segredo
De contar, na escuridão
As penas do teu coração

Pensa na dor que mora em mim
Fatal
Sem começo e sem fim
Eu só quero te encontrar
Pra te ver e te amparar

Olha a lua
Minha doida
Minha colombina lua
Sofre a tua negra solidão
E sonha fundo
Porque esse mundo é feito de ilusão
O teu coração é um pouco demente
E a loucura da gente não tem céu nem inferno

Olha a lua
Minha doida
Minha colombina lua
Não, não tenha medo de falar do teu segredo
De contar na escuridão
As penas do teu coração

Filed under: Música,Poesia — Um Barco @ 9:41 pm
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