Um Barco

quarta-feira, 9 dezembro 2009

E no mais?

No mais? No mais é isso…

Indo, às vezes navegando, em outras conduzido ou arrastado pela corrente diária do cotidiano, quando não despencando em alguma cachoeira mas, pelo menos, indo. Melhor que a tranquilidade ilusória dos lagos calmos nos quais abrimos mão das emoções em prol de uma paz que, na verdade, esconde o conformismo e a condescendência.

No mais, é querer sentir que ainda há uma vontade, oculta ou não, um desejo, qualquer coisa que diferencie aceitação de satisfação, responsabilidade de receio, vontade de hábito.

No mais, conciliar ou tentar harmonizar sentir e pensar, sabendo da impossibilidade disso, pelo menos num nível que não pareça, mesmo de fato sendo, que estamos querendo nos enganar. Olhar em volta e ver que tudo, bem sabemos, não passa de formas distintas da mesma coisa, o que não nos impede de ter a ilusão de um novo inexistente, a não ser em nossas fantasias e esperanças.

No mais, o olhar perdido nas paredes, vazio, mais por não saber como, do que não ter o que olhar, por não reconhecer ou não aceitar, daí a visão de um vácuo infinito, que preenchemos com o que resta de nossas quimeras.

No mais, as alegrias já conhecidas e repetidas, algumas até esperadas, apreciadas pelo que são e não pelo que representam, por nos trazer aquela esperança de uma próxima vez, cada vez mais próxima da última, o que as faz mais raras.

No mais, presenças amigas, desinteressadas de qualquer coisa que não seja a proximidade, a troca, o compartilhamento de solidões, iguais na forma, mesmo que não o sejam nas causas, sensação de se reconhecer no outro, espelho indefinido e fiel.

No mais, é tudo aquilo em que não pensamos, por já estar incorporado à rotina, coisas boas, pequenos prazeres, um gole de vinho ou cerveja com amigos, uma canção que toca em alguma corda interna, um sorriso lido ou imaginado num rosto até desconhecido, mas querido, a paz de árvores em dias sem vento.

No mais, a noite, sempre ela, embalando lembranças, acolhendo vontades, iludindo razões, cobrando atos para, ao acordar, devolver tudo em forma de nós desatados, farrapos de sonhos, realidades equivocadas.

Pensando bem, no mais é, na verdade, muito menos do que queremos crer, muito embora seu peso pareça nos esmagar, nos curtos intervalos da vida, em que nos confrontamos com a natureza fluida das aspirações distantes.

Pensando melhor, no mais, tudo bem…

A Noite
(Ivan Lins & Vítor Martins)

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A noite tem bordado
Nas toalhas dos bares
Corações arpoados
Corações torturados
Corações de ressaca
Corações desabrigados demais

A noite tem falado
Nas cadeiras dos bares
De paixões afogadas
De paixões recusadas
De paixões descabidas
De paixões envelhecidas demais

A noite traz no rosto sinais
De quem tem chorado demais

A noite tem deixado
Seus rancores gravados
À faca e canivete
À lápis e gilette
Por dentro das pessoas
Por dentro dos toilettes e mais
Por dentro de mim

Filed under: Música,Prosa — Um Barco @ 7:27 pm

2 Comments »

  1. No mais, apenas algumas dúvidas a mais, visitantes de outrora que, vez em quando, voltam para lembrar-me de minha fraqueza de ser humano.

    No mais, só essa falta calmaria dentro de mim, que é surpreendida por um tufão que vem de dentro, dentro desse meu vulcão domesticado, provando que jamais serei dona de meus instintos e impulsos. Eles são livres, mais que eu, pois não precisam nem mesmo de mim para existirem.

    No mais, só essa espera em esperar por mim.

    No mais, só essa saudade que sinto de mim mesma, como se de mim eu tivesse partido.

    No mais, só essa vontade louca de beijar-te a boca, olhar-te nos olhos e entender como me carregas com tuas palavras e me levas a devaneios sem fim.

    No mais, apenas tu, apenas eu, apenas nós…

    No mais, jamais menos… sempre mais.

    Beijos nada calmos para um Homem Calmo…

    Dylan, Bob Dylan.

    Comentário by Just a little girl... — quinta-feira, 10 dezembro 2009 @ 12:36 am

  2. Por que vc insiste em despertar o que tento manter adormecido?

    Comentário by Mi — domingo, 13 dezembro 2009 @ 12:00 pm

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