Um Barco

quarta-feira, 20 agosto 2008

A última fatia de torta

Uma bandeja, uma fatia de torta, a última. Assim, simplesmente. Ela é o que vemos nela, aquilo em que se tornou, o que sobrou, o que restou, guardando de sua origem somente alguns atributos intrínsecos, mais nada.

Ela representa, talvez, uma ponte entre o desejo e o remorso. A última fatia é uma tortura para aqueles que sofrem do mal de não pensar apenas em si mesmos, essa verdadeira doença que nos obriga a meditar e repensar sobre cada conseqüência possível, por mais improvável que seja, de cada pensamento, palavra e ato.

Pouco importa que outra torta igual esteja aguardando na confeitaria onde foi comprada a que deu origem a essa fatia que nos julga, somente por estar ali, e por ser a última, símbolo de todo um contexto que jamais se repetirá. Por isso mesmo, não há outra torta igual.

Não interessa que o sabor seja o mesmo, até porque não será mesmo, uma vez que sabores são fluidos e efêmeros, como o são os odores, como, mais ainda, são os toques, os momentos.

Impossível olhar, sem que sentimentos diversos brotem de cada sentido. Fantasiar a sensação quase sensual da saliva que enche a boca com a expectativa do sabor, do doce. Imaginar o cheiro, na iminência da mordida que causará a comunhão com aquele objeto do desejo. O fechar de olhos, concentrando no gosto todos os outros sentidos. O mastigar lento, querendo inundar a boca com aquele sabor, querendo prolongar, ao máximo, quase um orgasmo. O engolir relutante, mas inevitável. O abrir os olhos, o cair em si.

E lá está a última fatia de torta, solitária, numa bandeja fria, como frios são os quartos, nos quais somos os únicos, os últimos.

Comê-la seria impensável, porque há outros que também a desejam. Quem somos nós, para merecê-la? Como usufruir daquele prazer sem sentir uma ponta de culpa e remorso subseqüentes, pelo ato solitário?

Não comê-la seria uma provação, uma provocação, uma verdadeira prevaricação sensorial, um crime contra a própria natureza humana.

A última fatia de torta é a afirmação da renúncia ou a negação da solidariedade, é a ponte entre o cotidiano profano dos atos e o divino interior das emoções. Estar ou não estar, comer ou não comer, viver ou não viver, tudo isso para ser ou não ser, muitas questões.

Por falta de filosofia mais profunda, por falta de chocolate, por não estar numa janela olhando para uma tabacaria, bebo a angústia que a última fatia desperta, como se todo o ato de viver fosse sintetizado por uma dentada numa fatia de torta, a única, a última, meu elo com a realidade, alegoria de mim mesmo.

Carta
(Francis Hime & Ruy Guerra)

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Nunca estive tão sozinho
Nos caminhos da tristeza
Nos campos de outra nobreza
Nos lagos de tanto vinho
Nunca estive tão sofrido
Nos trilhos da solidão
Nas carreiras da paixão
Nas dentadas desse pão.

Nunca estive tão cansado
Nas calmarias de um bar
Nas paradas de um olhar
Nas tatuagens de um fado
Nunca estive tão assim
Tanta rama e tanta gana
Tão maduro e tão sem cama
Tão seguro e tão sem fim.

Filed under: Prosa — Um Barco @ 11:05 am

quinta-feira, 7 agosto 2008

Cedo ou tarde

Cedo ou tarde, não tem jeito,
A conta é apresentada,
Mais alta que o esperado,
Tão cara quanto doída,
Toda cobrança da vida.

Cedo demais me parecia,
O tempo que se arrastava,
Lento e frio escorrendo
Como o suor pelo rosto,
Todo travo do desgosto.

Cedo ou tarde, eu já sabia,
Que o sonho ia findar
Na percepção do instante,
No despertar da razão,
Todo engano da ilusão.

Tarde demais, eu me dizia
E foi como num momento,
Apenas um instante,
Não mais que um segundo,
Todo tempo do mundo.

Tarde ou cedo, cedo ou tarde,
Não importa o quanto dure,
Mais tarde que o por do sol,
Mais cedo que o amanhecer,
Toda angústia de ser.

 

Meia Noite
(Edu Lobo e Chico Buarque)

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Se a noite não tem fundo
O mar perde o valor
Opaco é o fim do mundo
Pra qualquer navegador
Que perde o oriente
E entra em espirais
E topa pela frente
Um contingente
Que ele já deixou pra trás
Os soluços dobram tão iguais
Seus rivais, seus irmãos
Seu navio carregado de ideais
Que foram escorrendo feito grãos
As estrelas que não voltam nunca mais
E um oceano pra lavar as mãos

Filed under: Poesia — Um Barco @ 5:38 pm

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