Um Barco

quarta-feira, 14 abril 2010

Percepção

Agora percebo
Se não claramente,
Mais facilmente, mais forte,
A presença fria e muda
Da soma de meus silêncios,
Da diferença de meus tempos,
Meus quantos, meus quases,
Meus já não distantes limites,
Meu cálice de anseios,
Meu pão que não sacia
Embora ainda queira
Ir, embora, do que não sou.

Agora, só agora…
Mas ainda cedo bastante
Para emergir dos sonhos fáceis,
Do sorriso contumaz e frio,
Das comparações vazias,
De tudo que se mostra óbvio,
Justamente por não ser, não passar
De mera percepção, imagem
Revelada na consciência,
Irrealidade subjetiva, falsa,
Tão forte e por tanto tempo
Que nada deixou, senão ausência.

Agora sim, sinto
Se não tão fortemente,
Mais docemente, mais mansa,
A ausência morna e gritante
Dos sonhos do ontem, bem longe.
A realidade vizinha, amiga,
Da soma de meus futuros,
Meus parcos, meus muitos,
Meus poucos, meus todos
Instantes ainda ativos, plenos,
Vívido cenário, vivo, presente.
Vivo mais, ainda mais vivo.

 

O Jeito de Viver
(Sá & Guarabyra)

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Eu ainda sou aquele sonhador
Desculpe se o que sinto é muito antigo
Desculpe o que eu fizer que é por amor
Eu ainda vivo no mundo da lua
Fazendo planos simples pro futuro

Eu na verdade sou um menestrel medieval
Assombrado por imagens de televisão
Assustado pelas coisas que acontecem
Dentro do meu coração
Por isso eu penso que essas coisas
Não deviam ser como elas são

Eu ainda estou querendo descobrir
Um jeito de mostrar meu sentimento
Um jeito claro e simples de viver
Sem precisar fingir

Filed under: Música,Poesia — Um Barco @ 10:35 pm

terça-feira, 22 dezembro 2009

Não querer

Não quero mais, não quero!
Mas desejo, mesmo sem querer.
Não quero mais navegar,
Nos mares de meu desejo.

As pedras do jardim, não quero,
Nem os peixes que nadam e negam
Que desejo o que não quero,
Mesmo desejando, sem querer.

Não quero mais a lua branca,
Mas a desejo redonda, amarela,
Iluminando o que não mais quero
E o rubro desejo de querer mais.

Não mais à beira-mar.
Amar não quero, só desejo a espuma
Se espalhando em meu barco,
À beira de meu desejo.

Uma praça já não quero,
Nem banco ou carrocinha,
Mas desejo uma rua, reta,
Que me leva, leve e não me traz.

Não quero o rolar das pedras
Sopradas por ventos novos,
Mas desejo que brilhem os sons
Dos sinos da liberdade.

Quero mais, quero num bar,
Que meu desejo se molhe,
No mar de não mais querer,
No ato de beber, como quero!

Não quero, não por querer.
Desejo, não por querer.
Desejo, por não querer.
Não quero, por desejar.

Não quero, desejo, não…quero!

O Bem e o Mal
(Danilo Caymmi & Dudu Falcão)

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Eu guardo em mim dois corações
Um que é do mar, um das paixões
Um canto doce,
Um cheiro de temporal
Eu guardo em mim um Deus,
Um louco, um santo
Um bem e um mal

Eu guardo em mim tantas canções
De tanto mar, tantas manhãs
Encanto doce
O cheiro de um vendaval
Guardo em mim
O Deus, o louco, o santo
O bem e o mal

Eu guardo em mim tantas canções
De tanto mar, tantas manhãs
Encanto doce
O cheiro de um vendaval
Guardo em mim
O Deus, o louco, o santo
O bem e o mal

Filed under: Música,Poesia — Um Barco @ 5:03 pm

domingo, 22 novembro 2009

Qualquer hora

Qualquer hora o tempo cai
Como uma vontade atrasada,
Mentira desmascarada,
Que nem quarta-feira de cinzas,
Lua cheia, delírio real.

E vai ser como uma enchente,
Inundando a vida com dias,
Misturando instantes, momentos,
Estantes de velharias, modernas
Lembranças, crescente.

E a fantasia, nova, escondida,
Enfim escancarada, explode, solta
Nos rostos risadas, palhaças,
Deformando dores, tristezas
Em prazeres, belezas, falsas.

Numa mistura estranha,
De mente e coração, há vida
Inteligente no peito, que mente,
E nem se enxergava, antes,
Não percebia, só mandava.

E o que parecia, não é
Senão a sombra atirada
No chão, descartada, minguante
De toda penumbra, de luz
No corpo desenhada, sem fé.

No fim do túnel, esperança
Nem há, nem túnel tem, fim
Do instante, da fase, da hora
Emprestada, imposta, imprestável
Alegoria, findou.

Qualquer tempo, chega o fato,
Como uma ressaca curtida,
Verdade de novo assumida
Como primeiro de abril,
Depois que acaba, resta a vida.

 

Olha a Lua
(John Neschling & Geraldo Carneiro)

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Olha a lua
Minha doida
Minha triste colombina
Conta por que sofres tanto assim
Será que é pouca
A minha alma louca de arlequim
Dentro de mim
Um sonho danado de viver embriagado
Pelo lado avesso

Olha a lua
Antes que ela vá pra trás do edifício
Não, não tenha medo de falar do teu segredo
De contar, na escuridão
As penas do teu coração

Pensa na dor que mora em mim
Fatal
Sem começo e sem fim
Eu só quero te encontrar
Pra te ver e te amparar

Olha a lua
Minha doida
Minha colombina lua
Sofre a tua negra solidão
E sonha fundo
Porque esse mundo é feito de ilusão
O teu coração é um pouco demente
E a loucura da gente não tem céu nem inferno

Olha a lua
Minha doida
Minha colombina lua
Não, não tenha medo de falar do teu segredo
De contar na escuridão
As penas do teu coração

Filed under: Música,Poesia — Um Barco @ 9:41 pm

terça-feira, 20 outubro 2009

Torpor

Nada assistir
Por não apreciar,
Não discernir,
Não enxergar.

Nada entender
Por não concordar,
Não perceber,
Não acatar.

Nada querer
Por não avocar,
Não exercer
Não se esforçar.

Nada assumir
Por não se engajar,
Não aderir,
Não confiar.

Nada sentir
Por não internar,
Não permitir,
Não aceitar.

Nada deixar
Por não construir,
Não afirmar
Não definir.

Nada esquecer
Por nada lembrar,
Nada valer,
Nada importar.

___________________________

Evangelho
(Paulo César Pinheiro & Dori Caymmi)

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Eta mundo que a nada se destina
Se maior se faz, mais se arruína
Se mais quer servir, mais nos domina
Se mais vidas dá, são mais os danos
Se mais deuses há, mais são profanos
Estes pobres de nós seres humanos

Eta vida, essa vida de infelizes
Quanto mais coração, mais cicatrizes
No amor é que a dor cria raízes
De dentro do bem é que o mal trama
Da felicidade cresce o drama
Dessas tristes de nós vidas humanas

Eta tempo que em pouco nos devora
O pavio da vela apagará
Quanto mais se partir tempos afora
Mais nos tempos de agora se estará
E mais tarde quando o tempo melhora
A nossa mocidade onde andará?

Eta morte que acaba tempo e vida
O mundo não conseguiu saída
É o fim mas pode ser o começo
Quem tenta fugir faz sempre o avesso
E quanto mais vidas se cultiva
Mais a morte alimenta a roda viva

Filed under: Música,Poesia — Um Barco @ 8:31 pm

quinta-feira, 11 setembro 2008

Até

Até quando verei a noite,
Vazia como uma saudade,
Tão escura quanto fria,
Mais crua que a verdade?

Até que ponto a escuridão
Vai me esconder da tristeza,
Quando o que me restar for nada
Além de ausência e certeza?

Até onde me levará a ilusão
Que sempre foi lanterna e guia
No instante em que o fim do túnel
Revelar o que eu não via?

Até, talvez, ao encontro vazio
Com nada além do que se espera,
Nada aquém do que se teme
Quiçá a última quimera.

Até porque a dúvida, amiga fiel,
Agora que tudo é mais claro,
Se afasta deixando a verdade,
Desencanto, desamparo.

Até que enfim e, certamente,
Até o fim de todo segredo,
Até que o sorriso se acabe, vazio,
Até outro sonho, outro medo.

 

Memória e Fado
(Egberto Gismonti & Geraldo Carneiro)

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Por que o sonho terminava
Quando o dia amanhecia
No espelho
Vinha um medo desse gosto morto do passado
Mergulhado na memória
Eu não queria que a vida findasse no abismo desse quarto
Amargando amargurada solidão

Por que a hora se esvazia
Na memória do espelho
Como um fado
Teço o fio do meu sonho cheio de mistério
Um rosário de silêncio
E a minha boca fechada com medo das sombras desses anjos
Que se foram e não voltam nunca mais

Filed under: Poesia — Um Barco @ 8:28 pm
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