Um Barco

domingo, 27 junho 2010

Três Oleiras

 ”Três Oleiras” , na verdade, são duas ceramistas, Ana e Yara, que criaram um ateliê de cerâmica no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro.

Tiveram a idéia de ilustrar parte das obras com descrições nascidas da percepção de algumas pessoas que foram convidadas a escrever sobre as peças que viam, pelo menos em fotos. Assim é que, uma visita ao blog do ateliê mostrará várias dessas visões acerca das cerâmicas que são lá confeccionadas. Sendo amigo de uma delas, fui instado a colaborar, meio receoso, afinal nunca havia tentado algo assim.

Função e forma são atributos nem sempre conflitantes, nem sempre convergentes, porém sempre individualmente ligados à percepção de cada observador (ou utilizador). Despertam (ou não) pensamentos, emoções, lembranças, enfim, como arte, tocam em alguma tecla ou corda interior e, como objetos de decoração ou utilização, se incorporam ao cotidiano, fazendo parte do pano de fundo de nossa existência.

Não busquei nenhum referente, apenas procurei limpar minha mente, enquanto olhava os objetos que devia “descrever” e fui colocando no papel virtual do “Bloco de Notas” as idéias verbais que cada objeto me sugeria, nome ou título, incluído. O resultado pode ser visto a seguir.

Meus agradecimento às duas ceramistas pela oportunidade de poder participar, bem como pela gentileza em permitir que eu reproduzisse, neste espaço, parte da beleza que compartilham em seu blog e ateliê.

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Nervuras

nervuras 

Nervuras

São como veios, veias,
Cruzando, rasgando, a pedra
Que se retorce, regular e bela
Que se curva à própria beleza,
Nervosa, fria, fragmento
Estático, momento capturado,
Presente.

                     Um Barco

 

Simetria

simetria

Simetria

Num céu enevoado,
Finito e curvo,
As linhas
Aliciam olhares
Alistam vontades
Alumiam sonhos
Alinham-se obedientes,
Aninham-se as linhas,
Confortadas, comportadas,
Compenetradas, mansas
Na regularidade simétrica
Dos sorrisos calmos.

                            Um Barco

Forma

cubo

Forma

Regular, que seja,
Simétrica que se deseje,
Imperfeita, pois de humana origem,
Fênix de pedra, do forno parida,
Forma e sonho,
Desejo vago,
Abstração e realidade,
Juntas.

                     Um Barco

Arquivado em: Digressões — Um Barco @ 10:41 pm

sexta-feira, 13 novembro 2009

Mordaça – MPB4

A música, pelo menos para mim, funciona, em determinadas ocasiões, como um gatilho, disparando memórias, lembranças, fatos não ocorridos, embora desejados, vontades ilusórias de um passado incerto, enfim, abre portas de quartos, de porões, de armários.

Quando isso ocorre, é como uma comporta que despeja no coração uma enxurrada de emoções ou, por outro lado, pode ser, também, como uma rolha que é, cuidadosamente, retirada de uma garrafa deixando que o aroma forte permeie lentamente o ambiente. É uma sensação calma, embora angustiante, misturando nostalgias sem datas específicas, melancolias difusas, tristezas enevoadas.

Em muitos casos, a solidão, em qualquer de suas inúmeras facetas, se insinua, isso quando não é a causa primeira, marcando presença, firmando seu ponto, lembrando da inexorabilidade dos momentos a sós, nos quais somos nós contra nós mesmos. o que desejamos contra o que nos é oferecido, o que sentimos contra o que pensamos.

Se a letra da canção deixa, propositalmente, lacunas no sentido ou significado da mensagem, tudo está aberto à interpretação pelo imaginário, pelo inconsciente, por qualquer símbolo ou entidade interior que esteja à frente de nosso caminho, naquele momento. As palavras ouvidas ou lidas são decodificadas e incorporadas com uma carga de emoção talvez superior e desviada do que o autor tenha pensado, ao escrever.

Mas não interessa. A mensagem, depois de transmitida, não pertence mais ao autor e sim ao coração ou à mente de quem a recebe, passando a ser um pretexto para as próximas ações, independente de qualquer análise fria.

Sinceramente, não sei (e nem sei se gostaria de saber) da intenção de Paulo César Pinheiro, letrista da canção, ao escrever. Pode-se ler um protesto social , um lamento pelo fim de um amor, um grito suave de angústia pela incapacidade de mandarmos em nosso destino. A música de Eduardo Gudin foi muito valorizada pelo arranjo e interpretação do MPB-4.

Mordaça me faz, ao mesmo tempo, pensar e sentir. Pensar, tentando esmiuçar cada palavra, verso, estrofe em busca de referentes em minha própria vida. Sentir, absorvendo cada mensagem, subliminar ou não, tentando extrair da solidão do momento uma mordaça para a angústia primordial, veículo e causa dessa mesma solidão que se autoregenera e alimenta.

Mordaça é uma tentativa de luta, o que já é muito, mesmo que não seja bastante, mesmo que nem seja, mesmo assim.

 

Mordaça
(Eduardo Gudin & Paulo César Pinheiro)

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Tudo o que mais nos uniu separou
Tudo que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e passiva
O mesmo alento que nos conduziu debandou
Tudo que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação negativa

É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar

Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva
E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar

Arquivado em: Digressões, Música — Um Barco @ 7:23 pm

domingo, 4 outubro 2009

Um dia…

Um dia é uma vaga lembrança de um passado incerto e, por isso mesmo, confiável, na medida em que é hoje na mente o que desejamos e não o que efetivamente foi.

Um dia a casa não vai cair, não iremos mudar, nada houve.

Um dia é a consciência abafada pela percepção cotidiana e rotineira.

Um dia é o preço temporário pelo medo da noite ou o peso necessário para atravessar incólume a madrugada.

Um dia é a esperança tão raivosa quanto inútil de um desabafo, uma revolta contra aquilo que nos aflige, mesmo que só dependa de nós mesmos sua solução.

Um dia é um sonho possível, além da crua verdade que teimamos em ocultar de nós mesmos, mas é a impossibilidade assumida, porquanto atrelada a nossos receios, nossa incapacidade assumidas.

Um dia é uma mentira, uma ilusão vendida, uma realidade que não se concretiza aquém do desejo ou além do esperado.

Apesar de tudo, um dia sempre chega, aparece, acontece, ocorre, despenca, não importa qual seja sua manifestação, não importa o que trouxer, não importa.

Um dia, porém, é o aparecer repentino, o retorno prometido, a vontade finalmente satisfeita, o sorriso antes reprimido, agora liberto, o pranto alegre, a tentativa com sucesso.

“Um Dia”, além de tantos outros títulos, ou parte de títulos de músicas, é uma canção do Caetano Veloso, finalista do II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record de São Paulo, em outubro de 1966 e prêmio de melhor letra.

Em junho desse mesmo ano, no II Festival Nacional de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, Caetano logrou a quinta colocação com a música “Boa Palavra”, canção veladamente engajada.

Ambas as canções foram defendidas por Maria Odete, uma bonita cantora, de voz forte e interpretação um pouco empostada, porém bastante expressiva. Sobre sua interpretação de “Boa Palavra”, Zuza Homem de Mello em seu livro “A Era dos Festivais”,  relata que ela foi “…ovacionada entusiasticamente ao interpretar a curiosa melodia de Caetano Veloso, no arranjo de Antonio Adolfo, com uma garra impressionante, exagerada até sob certos aspectos, mas que fez vibrar a assistência…”.

Minha lembrança primeira de “Um Dia” é, justamente, na voz de Maria Odete, quando assisti à fita da final do festival. Posteriormente, a canção foi gravada por seu autor, mas com um arranjo bem diferente e que, confesso, não me agradou.

Deixo, abaixo, o vídeo do You Tube, trazendo a interpretação da final do festival. Nele, um Caetano Veloso quase juvenil e ainda não tropicalista mostra sua satisfação pelo êxito da canção que, infelizmente, foi esquecida, enquanto “Boa Palavra” seria gravada, posteriormente, por Elis Regina.

 

 

Um Dia
(Caetano Veloso)

Como um dia, numa festa
Realçavas a manhã
Luz de sol, janela aberta
Festa e verde o teu olhar

Pé de avenca na janela
Brisa verde, verdejar
Vê se alegra tudo agora
Vê se pára de chorar

Abre os olhos, mostra o riso
Quero, careço, preciso
De ver você se alegrar

Eu não estou indo-me embora
Estou só preparando a hora de voltar

No rastro do meu caminho
No brilho longo dos trilhos
Na correnteza do rio
Vou voltando pra você

Na resistência do vento
No tempo que vou e espero
No braço, no pensamento
Vou voltando pra você

No Raso da Catarina
Nas águas de Amaralina
Na calma da calmaria
Longe do mar da Bahia
Limite da minha vida
Vou voltando pra você

Vou voltando, como um dia
Realçavas a manhã
Entre avencas, verde-brisa
Tu de novo sorrirás

E eu te direi que um dia
As estradas voltarão
Voltarão trazendo todos
Para a festa do lugar

Abre os olhos, mostra o riso
Quero, careço, preciso
De ver você se alegrar

Eu não estou indo-me embora
Estou só preparando a hora de voltar

Arquivado em: Digressões, Música — Um Barco @ 9:46 pm

sábado, 23 outubro 2004

Motivações, opções e outras explicações.

Cobrado por uma amiga, sobre minhas infreqüentes atualizações neste blog, respondi-lhe que era preguiçoso. Acrescentei que também era hiperativo. Claro que uma das respostas era brincadeira. A primeira.

Já me defini como difuso, o que é verdadeiro e até conseqüência de minha hiperatividade. O fato é que me perco em mim mesmo. O rítmo, às vezes alucinante, de meu trabalho desmente minha pretensa preguiça.

Por motivos conjunturais, não costumo sair muito à noite, sendo a internet e o chat fontes de lazer. Por outro lado, tenho uma certa tendência a (ou vontade de) ser “geek” e gosto de informática (com alguma ênfase em programação). Isso tudo, para não falar nas tarefas que trago do trabalho para casa e que, de uma forma ou de outra, envolvem o uso do computador.

Não gosto de televisão, excetuando-se alguns shows e filmes. De vez em longe, uma dedilhada no violão, só para não esquecer, já que, uma vez por mês, me reúno com um grupo de amigos, para cantar, tocar, beber e beliscar petiscos, não necessariamente nessa ordem. Pronto, está montado o panorama de minha distribuição de tempo.

Puxa! Já ia me esquecendo! Tenho uma família (esposa, filha, sogra e gato) e tudo o que isso implica em disponibilidade de tempo. Falta ainda alguma coisa? Claro, sempre falta, mas fiquemos com essas variáveis das “opções”, do título do post. É óbvio que tudo que escrevi até esse ponto engloba as tais “explicações”, também do título.

O incentivo para a navegação de “Um Barco” é representado pelos comentários das(os) amigas(os) que, apesar da tendência desse “diário da web” (weblog=blog) se transformar em um mensário ou mesmo anuário, tendendo a um seculário, teimam em deixar, sob a forma de comentários, pedaços de carinho, que absorvo, com o prazer de quem come (desde que goste, é claro) uma torta de chocolate (sou chocólatra, portanto, já que este post é uma obra aberta, substituam pelo acepipe preferido).

Em particular, para o post de hoje, meu agradecimento vai para Marcos, autor de um bem humorado e inteligentemente crítico blog, cujo comentário reproduzo abaixo, na íntegra:

[Marcos][www.esculachoesimpatia.zip.net] Meu caro “Barco”, é uma maldade o que nos faz deixando-nos tanto tempo sem lê-lo.
21/10/2004 21:48

O que dizer agora de minhas motivações? Nada, apenas que gravitam ao sabor de meus devaneios instantâneos. Cada post que está neste blog partiu de um incentivo: uma lembrança, um chat, escritos antigos (poucos), desenterrados por uma pá de neurônios e desencadeados pelo acaso ou por um caso. De qualquer modo, mesmo que tarde, me vejo aqui, desnudando-me um pouquinho mais, numa catarse virtual coletiva e co-letiva, já que viver é aprender, embora nem sempre se aperceba disso no momento.

Meu caro Marcos, obrigado pela tacada na bola branca de minhas motivações. A você, dedico este post. A música é, como a maioria das que aqui coloco, não muito conhecida, mas com alguma referência ao momento. Este arranjo é ainda menos conhecido, com o “Som Imaginário”, nos idos de 1970 e com a letra diferente da gravada posteriormente por Beto Guedes. O momento é, ao escrever este post, platônico, com caverna e tudo.

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Feira Moderna
(Beto Guedes & Fernando Brandt)

Tua cor é o que eles olham, velha chaga
Teu sorriso é o que eles temem, medo, medo
Feira moderna um convite sensual
Oh! Telefonista, se a distância já morreu
O meu coração é velho
O meu coração é morto
E eu nem li o jornal

Nessa caverna o convite é igual
Oh! Telefonista, a palavra já morreu
Independência ou morte
Descansa em berço forte
A paz na terra – amem

Arquivado em: Digressões, Música — Um Barco @ 6:36 pm

domingo, 1 agosto 2004

Sobre o difuso…

Apesar da formação profissional me direcionar ao cartesiano, confesso que gosto do difuso, do incerto, do apenas sugerido.

Me agrada a obra aberta, inacabada, a palavra que sugere mais do que explica, o símbolo que instiga mais do que revela.

Gosto da imagem enevoada, impressionista, detalhes (aparentemente) desfocados que, com a distância, ganham contornos nítidos e luminosos. Negação do conhecimento pela proximidade.

Aprecio a arte que deixa a interpretação inteiramente a meu cargo. A obra me indica caminhos, tendências. Escolho o significado que quero, de acordo com o que sinto na ocasião.

Que eu não seja, por favor, rotulado de elitista ou purista. Nada do que declarei exclui o figurativo, o claro, o fechado. Um soneto, de métrica clássica, uma música de polifonia clara, um romance com final determinado também me agradam. O que desejei transmitir foi minha preferência genérica pela sutileza.

Já vi e ouvi muitos experimentalismos na década de 60 para me impressionar facilmente com propostas que se dizem “avançadas” ou “transgressoras”.

Gosto, especialmente, de letras de músicas que possuem viés simbolista ou aberto, bem como daquelas que nada dizem, mas carregam uma sonoridade forte, pelas palavras usadas.

Atentem para a letra de “Açaí”, de Djavan. Nenhum sentido aparente nas palavras, entretanto, principalmente na gravação de Gal Costa, uma enorme musicalidade, casamento de letra, música, ritmo.

Há muito de simbolismo nas primeiras letras de Caetano Veloso, infelizmente pouco conhecidas, já que antecedem “Alegria, Alegria”, música que o tornou famoso.

Poderia escolher letras de Caetano, como “Um Dia”, “Boa Palavra” ou “Clara”, para ilustrar o post e minha preferência pelo difuso, mas optei por Jessé cantando a música “Era Um Dia” (não confundir com outra música gravada por ele, “Um dia…”).

Era um Dia
(Oswaldo Montenegro)

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Era um dia de manhã
Como nos dias de manhã se pode ser
Claro como um dia claro
É como a gente,
É pouco mais do que ser claro
É o que se pode ser

Avalia o coração
Como teu coração também se julga ser
Forte como a chuva é forte
É como a gente,
É pouco mais do que ser forte
É o que se pode ser

Era tudo como tudo
É como se pudesse resultar em nada
Ah eu tenho medo pelo nosso amor
E como o dia amanhecer

Era tudo como tudo
É como se pudesse resultar em nada
Ah eu tenho medo, como se pode ter medo
Quando está feliz

Arquivado em: Digressões, Música — Um Barco @ 11:35 am
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