Um Barco

domingo, 4 outubro 2009

Um dia…

Um dia é uma vaga lembrança de um passado incerto e, por isso mesmo, confiável, na medida em que é hoje na mente o que desejamos e não o que efetivamente foi.

Um dia a casa não vai cair, não iremos mudar, nada houve.

Um dia é a consciência abafada pela percepção cotidiana e rotineira.

Um dia é o preço temporário pelo medo da noite ou o peso necessário para atravessar incólume a madrugada.

Um dia é a esperança tão raivosa quanto inútil de um desabafo, uma revolta contra aquilo que nos aflige, mesmo que só dependa de nós mesmos sua solução.

Um dia é um sonho possível, além da crua verdade que teimamos em ocultar de nós mesmos, mas é a impossibilidade assumida, porquanto atrelada a nossos receios, nossa incapacidade assumidas.

Um dia é uma mentira, uma ilusão vendida, uma realidade que não se concretiza aquém do desejo ou além do esperado.

Apesar de tudo, um dia sempre chega, aparece, acontece, ocorre, despenca, não importa qual seja sua manifestação, não importa o que trouxer, não importa.

Um dia, porém, é o aparecer repentino, o retorno prometido, a vontade finalmente satisfeita, o sorriso antes reprimido, agora liberto, o pranto alegre, a tentativa com sucesso.

“Um Dia”, além de tantos outros títulos, ou parte de títulos de músicas, é uma canção do Caetano Veloso, finalista do II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record de São Paulo, em outubro de 1966 e prêmio de melhor letra.

Em junho desse mesmo ano, no II Festival Nacional de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, Caetano logrou a quinta colocação com a música “Boa Palavra”, canção veladamente engajada.

Ambas as canções foram defendidas por Maria Odete, uma bonita cantora, de voz forte e interpretação um pouco empostada, porém bastante expressiva. Sobre sua interpretação de “Boa Palavra”, Zuza Homem de Mello em seu livro “A Era dos Festivais”,  relata que ela foi “…ovacionada entusiasticamente ao interpretar a curiosa melodia de Caetano Veloso, no arranjo de Antonio Adolfo, com uma garra impressionante, exagerada até sob certos aspectos, mas que fez vibrar a assistência…”.

Minha lembrança primeira de “Um Dia” é, justamente, na voz de Maria Odete, quando assisti à fita da final do festival. Posteriormente, a canção foi gravada por seu autor, mas com um arranjo bem diferente e que, confesso, não me agradou.

Deixo, abaixo, o vídeo do You Tube, trazendo a interpretação da final do festival. Nele, um Caetano Veloso quase juvenil e ainda não tropicalista mostra sua satisfação pelo êxito da canção que, infelizmente, foi esquecida, enquanto “Boa Palavra” seria gravada, posteriormente, por Elis Regina.

 

 

Um Dia
(Caetano Veloso)

Como um dia, numa festa
Realçavas a manhã
Luz de sol, janela aberta
Festa e verde o teu olhar

Pé de avenca na janela
Brisa verde, verdejar
Vê se alegra tudo agora
Vê se pára de chorar

Abre os olhos, mostra o riso
Quero, careço, preciso
De ver você se alegrar

Eu não estou indo-me embora
Estou só preparando a hora de voltar

No rastro do meu caminho
No brilho longo dos trilhos
Na correnteza do rio
Vou voltando pra você

Na resistência do vento
No tempo que vou e espero
No braço, no pensamento
Vou voltando pra você

No Raso da Catarina
Nas águas de Amaralina
Na calma da calmaria
Longe do mar da Bahia
Limite da minha vida
Vou voltando pra você

Vou voltando, como um dia
Realçavas a manhã
Entre avencas, verde-brisa
Tu de novo sorrirás

E eu te direi que um dia
As estradas voltarão
Voltarão trazendo todos
Para a festa do lugar

Abre os olhos, mostra o riso
Quero, careço, preciso
De ver você se alegrar

Eu não estou indo-me embora
Estou só preparando a hora de voltar

Filed under: Digressões,Música — Um Barco @ 9:46 pm

6 Comments »

  1. Tenho certeza de que voce não vai embora… prepara o tempo de voltar e adoro chegar aqui e ter essa surpresa. A sua volta me deixa muito feliz!
    Volte, sempre!

    Comentário by estrelas — domingo, 4 outubro 2009 @ 10:35 pm

  2. Sempre acreditei que UM DIA meus olhos voltariam a brilhar a medida que percorrem as palavras que refletem o seu interior.

    Comentário by Mi — segunda-feira, 5 outubro 2009 @ 4:00 pm

  3. oi menininho…entrei nesse barco..””um dia””…e aqui estou a navegar….não sei se em águas límpidas ou turvas….só sei q estou gostando…recolhi alguns fiapos e teço um porto.e só sei q ta bonito ta bonito e ta bonito—tomaa q seja um poto seguro.
    [sou a q tc com vc algumas letrinhas na sua salinha..lembra//falamos de sonhos …de poesias..,
    lembra?
    gostando de ler vc aqui-muito..muito..
    ”T.M”

    Comentário by fiapos — domingo, 11 outubro 2009 @ 9:57 pm

  4. RINDO–DEU PA NOTA Q SOU AQUELA Q O TECLADO..ESTA MEIO INDÓCIL NÉ??
    FALTA TUDO NELE..

    Comentário by fiapos — domingo, 11 outubro 2009 @ 9:58 pm

  5. Já estou aqui! Quem sou eu? 😉 Vou ler tudo com calma de pois comento. Abraço e boa semana!

    Comentário by SM — quarta-feira, 14 outubro 2009 @ 9:33 pm

  6. Essa é demais. Também adoro a interpretação do Quarteto em Cy. Um Caetano esperançoso ou capaz de dar esperança. Essa música sempre fez bem ao meu coração.”Eu não estou indo me embora/ Tô só preparando a hora de voltar.” Numa época de Sabiá… Bons tempos. Excelente música se fazia então.

    Comentário by Luzia Porto — sexta-feira, 4 novembro 2011 @ 2:53 am

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