Um Barco

terça-feira, 23 outubro 2007

Delírio

Quando um pouco ou quase nada
É o que enche até a borda,
Na sobra que nos resta,
Daquilo que era o tudo,
O que se tinha, o que foi dado,
O que escapou entre os dedos,

Quando o que fica é pouco,
E é só o resto do que foi
E a nós parece raso e parco,
Comparado com o que havia,
O real toma forma e se apresenta,
Como um vago devaneio no sonho.

Em meio ao vazio, a esperança
Teimosa, insistente, contumaz.
Em meio ao vazio, o olhar perdido
Num futuro inconstante, frio,
Naquilo que é apenas símbolo,
Na alegoria fugitiva do presente.

Em meio ao presente, o devaneio
Amigo constante, persistente, fiel.
Em meio ao presente, o olhar certo
Num futuro, agora sólido e cálido,
No símbolo que, para nós, representa
A alegoria última, delírio real.

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Dia branco
(Alceu Valença)

Deusa da noite
Sangrenta e fria
Irmã da lua
Mulher da noite e do dia
Eu vim de longe
Atrás da brisa
Com sete pedras
Bordei a minha camisa
Pra ver a doida das lantejoulas
Dos lábios verdes de purpurina
Dançar na noite nos Quatro Cantos
Com seu vestido de bailarina
Fazer o riso, tremer o medo
Fazer o medo, virar sorriso
Fazer da noite dos Quatro Cantos
Um dia branco feito domingo

Filed under: Poesia — Um Barco @ 5:43 pm

terça-feira, 16 outubro 2007

Reinvenção

Abrir as portas interiores é vislumbrar possibilidades impossíveis e percorrer caminhos que, pensamos, podem nos conduzir ao que perdemos ao longo de outros caminhos, estes sim, já percorridos.

Todos os caminhos nos levam, em algum momento, a caminhos anteriores, a constantes recomeços, mesmo que de forma parcial, a reavaliações, a um refazer recorrente de tudo o que já está feito, numa tentativa, muitas vezes frustrante de se reinventar.

Todos os caminhos, quando repensados, conduzem a autocríticas severas das decisões tomadas, mesmo sabendo que muitas o foram no calor de um momento emocional mais intenso, na baixa de guarda do racional. Tudo, imaginamos inocentemente, poderia ser, poderia ter sido ou pode ser refeito, menos em nossa consciência, onde está tatuado de forma quase indelével.

Tentamos reescrever nossa própria história, buscando aqueles pontos de inflexão, nos quais decisões, posteriormente entendidas ou reconhecidas como importantes e que, até em função disso, geraram ramos inteiros de futuros, foram tomadas, mas que hoje formam um passado que queremos mutável.

E elaboramos caminhos alternativos que poderiam ser tomados, nos esquecendo que, assim fazendo, negamos a realidade objetiva, em prol de um devaneio subjetivo momentâneo, consolo temporário, delírio.

O que já está escrito é reformado, reformatado, como se a forma influenciasse não o conteúdo, mas a percepção que os outros têm dele. Como se não bastasse, criamos mecanismos de facilitação (pelo menos, em nossa visão), tentando resgatar as entrelinhas daquilo que nem sabemos se foi ou ainda é revestido de alguma importância.

O que criamos como atividade solitária, que tentamos, imperfeitamente, transmitir continua a nos assombrar, a nos lembrar, a nos solicitar algo que justifique sua permanência num tempo, pelo menos interior e, talvez por isso mesmo, muito maior do que, efetivamente, é.

O que esperamos é diferente daquilo que recebemos. O que demos foi aquém do que, hoje, gostaríamos de receber. O que vivemos é a realidade menos visível de nossa vontade. O que sentimos é a ilusão mais escondida de nossa negação. O que somos é a soma incompleta do que fomos e o resto do que seremos, um dia.

Eventualmente, fechamos as portas interiores, abrimos as janelas e deixamos entrar a luz e a sombra que a acompanha, como acontece com tudo aquilo que é iluminado exteriormente.

 

Janelas Abertas nº 2
(Caetano Veloso)

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Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro
Percorrer correndo, corredores em silêncio
Perder as paredes aparentes do edifício
Penetrar no labirinto
Um labirinto de labirintos dentro do apartamento

Sim, eu poderia procurar por dentro a casa
Cruzar uma por uma as sete portas, as sete moradas
Na sala receber o beijo frio em minha boca
Beijo de uma deusa morta
Deus morto, fêmea língua gelada, língua gelada como nada

Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília
Em cada um matar um membro da família
Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia
O que aconteceria de qualquer jeito
Mas eu prefiro abrir as janelas
Pra que entrem todos os insetos

Filed under: Prosa — Um Barco @ 9:28 pm

sexta-feira, 5 outubro 2007

Certeza

Nem havia antes,
Quanto mais agora,
Que o incerto,
Mas previsível,
Se fez presente,
Trazendo a face nua
Daquilo que cobrimos,
De tudo que evitamos,
Do que recusamos,
Por mais que seja,
Por mais que nos ronde,
Por menos que desejemos.

Se não havia antes,
Hoje sobra, excede,
Invade e toma tudo,
Onde o pouco que havia
Era o que bastava,
Por mais insuficiente
Que aparentasse,
Ou que quiséssemos.
Não imaginávamos,
E fomos obrigados,
Fomos empurrados, impelidos,
Irremediavelmente.

Se hoje sobra, excede,
Não é nossa culpa,
Não, voluntariamente,
E nem há culpados
A não ser a certeza,
Aquela que não havia,
Porque era ignorada,
Impensada, por distante,
E que se fez presente,
No breve e frio momento
Em que o incerto passou a ser
A única certeza

Se não é nossa, a culpa,
É nossa, a conseqüência,
O efeito, o que ficou,
Aquilo que pesa e dói.
Junto com a culpa,
Aquela que não é nossa,
O arrependimento, inútil,
O repensar no inexorável,
A tentativa vazia, oca
De se justificar,
Sabendo-se culpado,
Com certeza.

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Brilhar a Minha Estrela
(Dicastro)

O mais importante prum guerreiro
É simplesmente a vontade de viver,
Sem parar pra pensar nos momentos
Que virão.

Ele sabe o que quer, sabe o que é,
Conhece o caminho,
É o dono da sua verdade,
Do seu destino.

Dá mais um, lembrar de tudo isso.
Dá mais um, pensar no que é bonito.
Dá mais um, em frente na certeza.
Dá mais um, brilhar a minha estrela.
Dá mais um.

Filed under: Poesia — Um Barco @ 4:15 pm

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