Um Barco

quarta-feira, 16 janeiro 2008

Minha Rua – Sidney Miller

Visitei, recentemente, a rua em que vivi, dos 5 aos 9 anos de idade e, naquele momento em que lá estive, a canção deste post se tornou mais nítida em minha lembrança, como a rua que, em linhas gerais, mudou relativamente pouco em quase 50 anos. Algumas casas ainda tinham a mesma fachada.

Quanto aos personagens descritos na canção, lembro-me de todos, até e inclusive, do último descrito que, afinal de contas, era eu mesmo, naquela distante década de 50.

Esta música nem faz parte do rol das mais conhecidas de Sidney Miller, como “A Estrada e o Violeiro”, “O Circo”, “Pois é Pra Que”. Ele morreu muito cedo, aos 35 anos e os títulos de suas canções evocavam pedaços da infância, como, além das citadas, “Menina da Agulha”, “Passa, Passa Gavião”, “Marré-de-Cy”, onde usava pedaços de letras originais das canções infantis para pontear letras, em geral longas, com belas imagens.

Era um letrista refinado. “A Estrada e o Violeiro”, que podem ouvir em um post de 2005, obteve o prêmio de melhor letra do III Festival da Música Popular Brasileira, Teatro Record, São Paulo, em 1967.

Sidney Miller viveu pouco, de 1945 a 1980, deixando uma obra pequena e pouco conhecida, mas cheia de jóias musicais.

O Quarteto em Cy é quem interpreta este arranjo de “Minha Rua”, que fez parte do álbum (LP) “Em Cy Maior”, de 1968. Creio, inclusive, que é a única gravação. A letra, não consegui localizar em nenhum site de busca, mostrando como é pouco conhecida, mas como já sabia quase de cor, foi fácil transcrever e compartilhar aqui.

Minha Rua
(Sidney Miller)

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Minha rua pequenina
Tem seu mundo em pouco espaço
Cada esquina tem seu rosto
Cada rosto seu compasso

Cada passo na calçada
Me parece estar chamando
Venham todos na sacada
Que o carteiro vai passando

Roda o mundo e não se cansa
Roda o tempo e não se importa
Porque traz uma esperança
Deixa um sonho em cada porta
Na saudade que transporta
Sua vida não é sua.
São mil vidas de outras terras
De outra gente de outras ruas

Cada passo na calçada
Me parece estar chamando
Venham todos na sacada
Varredor lá vem chegando

Varre o pó da madrugada
Que a vassoura é pau e palha
Varre o lixo na calçada
Que de noite o vento espalha
Fosse a vida o teu trabalho
Vagaroso e vagabundo
Teu sorriso varreria
Varredor a dor do mundo

Cada passo na calçada
Me parece estar chamando
Venham todos na sacada
Vendedor lá vem cantando

Na cabeça traz um cesto
Na cantiga traz a moda
No pregão traz o produto
Chama o povo e faz a roda
Sua voz quando anuncia
Toma o gosto da cocada
Que de noite é melodia
Pra adoçar a namorada

Cada passo na calçada
Me parece estar chamando
Venham todos na sacada
Que o moleque está brincando

Rei da rua tem tesouro
Tem coroa que é de lata
Mas tem sonho que é de ouro
Liberdade que é de prata
Pois seu reino de pirata
Sem fronteira e sem esquina
Ninguém sabe onde começa
Ninguém sabe onde termina

Minha rua pequenina
Faz a volta em cada aurora
Fecho os olhos, dobro a esquina
Digo adeus e vou-me embora

Filed under: Música — Um Barco @ 9:51 pm

11 Comments »

  1. Que linda a letra da musica da “sua” rua!!! É sempre bom passar por aqui…

    Comentário by estrelas — sexta-feira, 18 janeiro 2008 @ 12:12 am

  2. Achei teu blog colocando o primeiro verso no Google… Meu pai tinha este LP, mas se perdeu. Adorei reencontrar a letra e ver que minha memória ainda funciona. Obrigada pelo momento

    Comentário by Helena — domingo, 15 junho 2008 @ 10:35 pm

  3. Sidney Miller…que saudade! Um personagem com um dos olhares mais tristes que já vi e, como não poderia deixar de ser, compôs lindas e melancólicas letras e melodias. Vide esta linda “Minha Rua” ou “Pois é prá quê” , “O Circo”, “A Estrada e o Violeiro”, “Botequim Nº1” e por ai vai. E, eu não sei bem porque, o seu suicídio (apesar da maioria das referências nem citarem este fato) foi algo que não deixou de ser compatível com a persona dele. Muito obrigado pelas lembranças e parabéns por esta bela homenagem.

    Comentário by Cassio Queiros — sábado, 28 junho 2008 @ 9:31 pm

  4. Adorei a tua sensibilidade. Tudo de bom o teu blog, e o Sidney Miller deveria ser mais referenciado, existe uma imperdoável lacuna na história da MPB. Continue sempre!

    Comentário by Angela Thompson — quarta-feira, 20 abril 2011 @ 9:14 pm

  5. Gostei muito deste post. Minha Rua é uma música que já conheci depois de adulta. A Cyva gravou para mim, ainda em fita K7, os LPs que eu não tinha e que, na época, não conseguia adquirir. Gosto muito do LP Marré de Cy. Não me lembrava de que o Sidney tinha partido tão moço. Na minha memória ele teria, ao menos, completado 40 anos de vida. Parabéns pela escolha. Vou xeretar mais o seu blog.
    Um abraço,
    Luzia

    Comentário by Luzia Porto — sexta-feira, 4 novembro 2011 @ 2:46 am

  6. Gosto desta canção. Vou tocá-la na entrada do ano novo. Saudações de um curtidor da MPB da Ucrânia!

    Comentário by Trem Azul — domingo, 13 novembro 2011 @ 9:37 pm

  7. E quanto ao Sydney Miller. Eu gosto do “Quem Dera”, gravado pelo MPB-4 no I Bienal do Samba… A gravação é massa!!!

    Comentário by Trem Azul — domingo, 13 novembro 2011 @ 9:39 pm

  8. Vou chamá-lo de “querido amigo”, muitissimo obrigada pela belíssima música !! Há anos que procuro na WEB por ela. Esta música fez parte da minha adolescência, tornou-se inesquecível ! Infelizmente eu tinha o vinil, mas com muitas mudanças, ele acabou se perdendo. Voce não tem idéia de como o meu dia ficou infinitamente, mais ” Minha Rua “.
    Todos os obrigados do mundo são poucos para voce. Um enorme abraço, Rita de Cássia Gaglianone. Fique em Paz !

    Comentário by Rita de Cássia — sábado, 15 setembro 2012 @ 6:48 pm

  9. Muito grata, durante anos busquei por Sidney Miller sem encontrar nada além das lembranças.
    Incrível que obras de tanta qualidade tenham ficado esquecidas.

    Comentário by Maria Zarria — sexta-feira, 22 fevereiro 2013 @ 10:26 pm

  10. Mais um para acreditar com você nessas canções. Conheço pouco do Sideny Miller, também pudera. Mas lamentos foras, sempre usei a musica do circo com meus alunos. Fizemos uma pequena apresentação com ela, como se fosse um espetáculo de circo, ao final foi colocada a música do Egberto Gismonti, Palhaço. Ficou legal. Essa composição não conheci. Quem regravou não sei de recentemente uma cação do Sidney foi o Pato Fu, pessoal de BH. Ficou bom e ao ouvir fui buscar mais coisas do Sidney, como agora.

    Comentário by Eduardo Knaip — terça-feira, 12 novembro 2013 @ 10:13 am

  11. O Pato Fu regravou A estrada e o violeiro.

    Comentário by Eduardo Knaip — terça-feira, 12 novembro 2013 @ 10:15 am

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