Um Barco

quinta-feira, 7 agosto 2008

Cedo ou tarde

Cedo ou tarde, não tem jeito,
A conta é apresentada,
Mais alta que o esperado,
Tão cara quanto doída,
Toda cobrança da vida.

Cedo demais me parecia,
O tempo que se arrastava,
Lento e frio escorrendo
Como o suor pelo rosto,
Todo travo do desgosto.

Cedo ou tarde, eu já sabia,
Que o sonho ia findar
Na percepção do instante,
No despertar da razão,
Todo engano da ilusão.

Tarde demais, eu me dizia
E foi como num momento,
Apenas um instante,
Não mais que um segundo,
Todo tempo do mundo.

Tarde ou cedo, cedo ou tarde,
Não importa o quanto dure,
Mais tarde que o por do sol,
Mais cedo que o amanhecer,
Toda angústia de ser.

 

Meia Noite
(Edu Lobo e Chico Buarque)

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Se a noite não tem fundo
O mar perde o valor
Opaco é o fim do mundo
Pra qualquer navegador
Que perde o oriente
E entra em espirais
E topa pela frente
Um contingente
Que ele já deixou pra trás
Os soluços dobram tão iguais
Seus rivais, seus irmãos
Seu navio carregado de ideais
Que foram escorrendo feito grãos
As estrelas que não voltam nunca mais
E um oceano pra lavar as mãos

Filed under: Poesia — Um Barco @ 5:38 pm

terça-feira, 22 janeiro 2008

No Fundo

No fundo do olho, a mente
Lê a vida na retina, invertida
E, enganadora, reinverte,
Deixando o mundo direito,
Menos no fundo,
No fundo, tudo é imperfeito.

No fundo da mente, o sonho
Se esconde por não concordar
Com a imagem que a mente girou,
Para tudo parecer natural,
Menos no fundo,
No fundo, tudo é irreal.

No fundo do sonho, o desejo
À espreita, mas enganado
Pela mente que aprisiona
Tudo que é invisível,
Menos no fundo,
No fundo, tudo é possível.

No fundo do desejo, a ilusão
Contida, tolhida, não acredita
Na mente ardilosa
Que a vida disfarça,
Menos no fundo,
No fundo, tudo é uma farsa.

No fundo da ilusão, o olho
Que vê a vida alimentar o sonho,
Que traz o desejo e cria a ilusão
De ordem, de sentido, de um plano,
Menos no fundo,
No fundo, tudo é engano.

No fundo do fundo, a porta,
Para além da vida, do sonho,
Do desejo e da própria ilusão,
Início de uma grande jornada,
Menos no fundo,
No fundo, no fundo, tudo é nada.

Inutil Paisagem
(Tom Jobim & Aloysio de Oliveira)

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Mas pra que
Pra que tanto céu
Pra que tanto mar,
Pra que
De que serve esta onda que quebra
E o vento da tarde
De que serve a tarde
Inútil paisagem
Pode ser
Que não venhas mais
Que não voltes nunca mais
De que servem as flores que nascem
Pelos caminhos
Se o meu caminho
Sozinho é nada
É nada

Filed under: Poesia — Um Barco @ 9:58 am

terça-feira, 27 novembro 2007

Realidade

É tudo vago e vazio
Quando um nada se instala
No que parecia cheio,
Quando se sentia pleno
E hoje parece nada ser
Além da sombra que foi.

Nada a sentir ou fazer
Quando tudo se esvazia
E pouco resta, pouco sobra,
No que, há pouco, se acreditava,
Naquilo que se imaginava
A razão primeira, o motivo maior.

Nessa hora o silêncio,
Amigo nem sempre constante,
Traz à tona o som da solidão,
Acalanto do tempo futuro
Inaudível no presente,
Desespero do passado.

No vazio, me encontro,
Um vácuo amplo e sereno,
Que me leva e que me traz
Em direção a lugar nenhum
Que me guia e que me embala
Por um nada que me envolve.

Nessa calma bem vinda
Da percepção do nada,
Nessa ilusão plena de paz
O beber das horas é doce,
O saber-me é vago, sereno,
Mente branca, coração vazio.

No caminho calmo do corpo,
No pensar vago da mente,
Imaginar o tudo que se viveu
Como se fosse um sonho, passado,
Que ficou para trás, acabou.
Alimentar a ilusão de renascer.

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Resposta ao Tempo
(Cristovão Bastos & Aldir Blanc)

Batidas na porta da frente é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei.

Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, se eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei.

E gira em volta de mim,
sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro sozinhos

Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Que ele adormece as paixões, eu desperto
E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver.

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder me esquecer.

Filed under: Poesia — Um Barco @ 4:13 pm

terça-feira, 23 outubro 2007

Delírio

Quando um pouco ou quase nada
É o que enche até a borda,
Na sobra que nos resta,
Daquilo que era o tudo,
O que se tinha, o que foi dado,
O que escapou entre os dedos,

Quando o que fica é pouco,
E é só o resto do que foi
E a nós parece raso e parco,
Comparado com o que havia,
O real toma forma e se apresenta,
Como um vago devaneio no sonho.

Em meio ao vazio, a esperança
Teimosa, insistente, contumaz.
Em meio ao vazio, o olhar perdido
Num futuro inconstante, frio,
Naquilo que é apenas símbolo,
Na alegoria fugitiva do presente.

Em meio ao presente, o devaneio
Amigo constante, persistente, fiel.
Em meio ao presente, o olhar certo
Num futuro, agora sólido e cálido,
No símbolo que, para nós, representa
A alegoria última, delírio real.

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Dia branco
(Alceu Valença)

Deusa da noite
Sangrenta e fria
Irmã da lua
Mulher da noite e do dia
Eu vim de longe
Atrás da brisa
Com sete pedras
Bordei a minha camisa
Pra ver a doida das lantejoulas
Dos lábios verdes de purpurina
Dançar na noite nos Quatro Cantos
Com seu vestido de bailarina
Fazer o riso, tremer o medo
Fazer o medo, virar sorriso
Fazer da noite dos Quatro Cantos
Um dia branco feito domingo

Filed under: Poesia — Um Barco @ 5:43 pm

sexta-feira, 5 outubro 2007

Certeza

Nem havia antes,
Quanto mais agora,
Que o incerto,
Mas previsível,
Se fez presente,
Trazendo a face nua
Daquilo que cobrimos,
De tudo que evitamos,
Do que recusamos,
Por mais que seja,
Por mais que nos ronde,
Por menos que desejemos.

Se não havia antes,
Hoje sobra, excede,
Invade e toma tudo,
Onde o pouco que havia
Era o que bastava,
Por mais insuficiente
Que aparentasse,
Ou que quiséssemos.
Não imaginávamos,
E fomos obrigados,
Fomos empurrados, impelidos,
Irremediavelmente.

Se hoje sobra, excede,
Não é nossa culpa,
Não, voluntariamente,
E nem há culpados
A não ser a certeza,
Aquela que não havia,
Porque era ignorada,
Impensada, por distante,
E que se fez presente,
No breve e frio momento
Em que o incerto passou a ser
A única certeza

Se não é nossa, a culpa,
É nossa, a conseqüência,
O efeito, o que ficou,
Aquilo que pesa e dói.
Junto com a culpa,
Aquela que não é nossa,
O arrependimento, inútil,
O repensar no inexorável,
A tentativa vazia, oca
De se justificar,
Sabendo-se culpado,
Com certeza.

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Brilhar a Minha Estrela
(Dicastro)

O mais importante prum guerreiro
É simplesmente a vontade de viver,
Sem parar pra pensar nos momentos
Que virão.

Ele sabe o que quer, sabe o que é,
Conhece o caminho,
É o dono da sua verdade,
Do seu destino.

Dá mais um, lembrar de tudo isso.
Dá mais um, pensar no que é bonito.
Dá mais um, em frente na certeza.
Dá mais um, brilhar a minha estrela.
Dá mais um.

Filed under: Poesia — Um Barco @ 4:15 pm
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