Um Barco

domingo, 22 novembro 2009

Qualquer hora

Qualquer hora o tempo cai
Como uma vontade atrasada,
Mentira desmascarada,
Que nem quarta-feira de cinzas,
Lua cheia, delírio real.

E vai ser como uma enchente,
Inundando a vida com dias,
Misturando instantes, momentos,
Estantes de velharias, modernas
Lembranças, crescente.

E a fantasia, nova, escondida,
Enfim escancarada, explode, solta
Nos rostos risadas, palhaças,
Deformando dores, tristezas
Em prazeres, belezas, falsas.

Numa mistura estranha,
De mente e coração, há vida
Inteligente no peito, que mente,
E nem se enxergava, antes,
Não percebia, só mandava.

E o que parecia, não é
Senão a sombra atirada
No chão, descartada, minguante
De toda penumbra, de luz
No corpo desenhada, sem fé.

No fim do túnel, esperança
Nem há, nem túnel tem, fim
Do instante, da fase, da hora
Emprestada, imposta, imprestável
Alegoria, findou.

Qualquer tempo, chega o fato,
Como uma ressaca curtida,
Verdade de novo assumida
Como primeiro de abril,
Depois que acaba, resta a vida.

 

Olha a Lua
(John Neschling & Geraldo Carneiro)

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Olha a lua
Minha doida
Minha triste colombina
Conta por que sofres tanto assim
Será que é pouca
A minha alma louca de arlequim
Dentro de mim
Um sonho danado de viver embriagado
Pelo lado avesso

Olha a lua
Antes que ela vá pra trás do edifício
Não, não tenha medo de falar do teu segredo
De contar, na escuridão
As penas do teu coração

Pensa na dor que mora em mim
Fatal
Sem começo e sem fim
Eu só quero te encontrar
Pra te ver e te amparar

Olha a lua
Minha doida
Minha colombina lua
Sofre a tua negra solidão
E sonha fundo
Porque esse mundo é feito de ilusão
O teu coração é um pouco demente
E a loucura da gente não tem céu nem inferno

Olha a lua
Minha doida
Minha colombina lua
Não, não tenha medo de falar do teu segredo
De contar na escuridão
As penas do teu coração

Filed under: Música,Poesia — Um Barco @ 9:41 pm

sexta-feira, 13 novembro 2009

Mordaça – MPB4

A música, pelo menos para mim, funciona, em determinadas ocasiões, como um gatilho, disparando memórias, lembranças, fatos não ocorridos, embora desejados, vontades ilusórias de um passado incerto, enfim, abre portas de quartos, de porões, de armários.

Quando isso ocorre, é como uma comporta que despeja no coração uma enxurrada de emoções ou, por outro lado, pode ser, também, como uma rolha que é, cuidadosamente, retirada de uma garrafa deixando que o aroma forte permeie lentamente o ambiente. É uma sensação calma, embora angustiante, misturando nostalgias sem datas específicas, melancolias difusas, tristezas enevoadas.

Em muitos casos, a solidão, em qualquer de suas inúmeras facetas, se insinua, isso quando não é a causa primeira, marcando presença, firmando seu ponto, lembrando da inexorabilidade dos momentos a sós, nos quais somos nós contra nós mesmos. o que desejamos contra o que nos é oferecido, o que sentimos contra o que pensamos.

Se a letra da canção deixa, propositalmente, lacunas no sentido ou significado da mensagem, tudo está aberto à interpretação pelo imaginário, pelo inconsciente, por qualquer símbolo ou entidade interior que esteja à frente de nosso caminho, naquele momento. As palavras ouvidas ou lidas são decodificadas e incorporadas com uma carga de emoção talvez superior e desviada do que o autor tenha pensado, ao escrever.

Mas não interessa. A mensagem, depois de transmitida, não pertence mais ao autor e sim ao coração ou à mente de quem a recebe, passando a ser um pretexto para as próximas ações, independente de qualquer análise fria.

Sinceramente, não sei (e nem sei se gostaria de saber) da intenção de Paulo César Pinheiro, letrista da canção, ao escrever. Pode-se ler um protesto social , um lamento pelo fim de um amor, um grito suave de angústia pela incapacidade de mandarmos em nosso destino. A música de Eduardo Gudin foi muito valorizada pelo arranjo e interpretação do MPB-4.

Mordaça me faz, ao mesmo tempo, pensar e sentir. Pensar, tentando esmiuçar cada palavra, verso, estrofe em busca de referentes em minha própria vida. Sentir, absorvendo cada mensagem, subliminar ou não, tentando extrair da solidão do momento uma mordaça para a angústia primordial, veículo e causa dessa mesma solidão que se autoregenera e alimenta.

Mordaça é uma tentativa de luta, o que já é muito, mesmo que não seja bastante, mesmo que nem seja, mesmo assim.

 

Mordaça
(Eduardo Gudin & Paulo César Pinheiro)

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Tudo o que mais nos uniu separou
Tudo que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e passiva
O mesmo alento que nos conduziu debandou
Tudo que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação negativa

É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar

Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva
E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar

Filed under: Digressões,Música — Um Barco @ 7:23 pm

quinta-feira, 29 outubro 2009

Rosinha – Edu Lobo

Havia algo de rural na modernidade brasileira de 1967. Claro, havia as Ligas Camponesas, movimentos de lavradores, protestos (que perduram até hoje, com outros rótulos), intensa atividade literária e musical, em clima de denúncias e de loas à liberdade. Peças, musicais, canções cantavam um Brasil do campo, do litoral de pescadores, até de caminhoneiros (pré Roberto Carlos), num modernismo meio atávico e exótico, onde havia lugar, também, para cantar o amor.

A bossa nova já não atraía alguns compositores que a haviam abraçado, inicialmente, mas estavam mudando para um formato musical típico de festivais, com refrões fortes e de fácil memorização.

Um grupo enveredava pela música dita engajada, outro inventava o que viria a ser chamado de tropicalismo, arranjos sofisticados em contraste com uma linguagem popular, outro ainda buscava formas experimentais, pouco a pouco se afastando das harmonias tradicionais. Assim, era comum que num mesmo álbum, o artista ou compositor procurasse cobrir as várias tendências musicais.

Um exemplo disso é o álbum “Viola Enluarada”, de Marcos Valle, onde se poderia ouvir desde a canção-título, representativa de uma dessas novas tendências, até “Terra de Ninguém”, música de protesto rural, inspirada talvez pelas areias de Ipanema, passando por uma experimental “Próton Elétron Neutron”, por um frevo, “Pelas Ruas do Recife” e uma marcha lenta e triste “Bloco do Eu Sozinho”, esta objeto de um post deste Barco. Talvez um dos melhores álbuns da profícua carreira de Marcos Valle.

Em outra vertente, Edu Lobo, vencedor de festival em 1965 com uma canção de pescadores, “Arrastão”, também apresentada em outro post. Na segunda metade de 1967, Edu Lobo, tendo como letrista Capinan, um de seus parceiros constantes, ganharia mais um festival, dessa vez com “Ponteio”, outra canção que, usando elementos do interior do Brasil, trazia harmonia e arranjo sofisticados, mas que levantaram o público.

Ainda em 1967, lança um “LP”, “Edu”, onde mantinha uma unidade conceitual, abordando temas tradicionais e mostrando formas modernas de rítmos típicos, à semelhança do que fizera em “Ponteio”, na “Embolada” ou no “Chorinho de Mágoa”, sem esquecer um pouco de crítica social, embora disfarçada, no “Jogo de Roda”.

Desse álbum, escolhi “Rosinha”, música de Edu Lobo e letra de Capinam. “Rosinha” é, no meu modo de pensar e sentir, a idealização de um amor daqueles típicos dos adolescentes. A garota inatingível, o jeito ingênuo, tranças, a simplicidade dos gestos juvenis, tudo num cenário caracteristicamente rural.

O arranjo parece captar muito bem esse clima meio nostálgico, meio triste, meio melancólico. O solo inicial de trombone, como que antecipando o espírito da letra, a voz aveludada de Edu Lobo transmitindo o desalento. Até hoje ouço essa canção com ouvidos de adolescente e, de certa forma, me identificando com o jovem e seu amor não correspondido.

Rosinha
(Edu Lobo & Capinan)

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Rosa vai com a sombrinha caminhando
Pra onde Rosa caminha
Lá vou eu me desviando
Pra onde Rosa caminha
Lá vou eu me desviando

Rosa trança e mal-me-quer
O vento vai levantando
Rosinha se não me quer
Eu deixo a chuva te molhando
Rosinha se não me quer
Eu deixo a chuva te molhando

Rosa vai com a sombrinha
Caminha sem responder
Andorinha, pastorinha
Eu tomo chuva por você

Vou na serra buscar flôres
Mal-me-quer e girassol
Prometi um passarinho
Cardeal ou curió
Prometi um passarinho
Cardeal ou curió

Rosa vai com a sombrinha
Rosa vai com o namorado
Pra onde Rosa caminha
Sigo eu abandonado
Pra onde Rosa caminha
Sigo eu abandonado

Ô Rosa…

Filed under: Música — Um Barco @ 8:53 pm

terça-feira, 20 outubro 2009

Torpor

Nada assistir
Por não apreciar,
Não discernir,
Não enxergar.

Nada entender
Por não concordar,
Não perceber,
Não acatar.

Nada querer
Por não avocar,
Não exercer
Não se esforçar.

Nada assumir
Por não se engajar,
Não aderir,
Não confiar.

Nada sentir
Por não internar,
Não permitir,
Não aceitar.

Nada deixar
Por não construir,
Não afirmar
Não definir.

Nada esquecer
Por nada lembrar,
Nada valer,
Nada importar.

___________________________

Evangelho
(Paulo César Pinheiro & Dori Caymmi)

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Eta mundo que a nada se destina
Se maior se faz, mais se arruína
Se mais quer servir, mais nos domina
Se mais vidas dá, são mais os danos
Se mais deuses há, mais são profanos
Estes pobres de nós seres humanos

Eta vida, essa vida de infelizes
Quanto mais coração, mais cicatrizes
No amor é que a dor cria raízes
De dentro do bem é que o mal trama
Da felicidade cresce o drama
Dessas tristes de nós vidas humanas

Eta tempo que em pouco nos devora
O pavio da vela apagará
Quanto mais se partir tempos afora
Mais nos tempos de agora se estará
E mais tarde quando o tempo melhora
A nossa mocidade onde andará?

Eta morte que acaba tempo e vida
O mundo não conseguiu saída
É o fim mas pode ser o começo
Quem tenta fugir faz sempre o avesso
E quanto mais vidas se cultiva
Mais a morte alimenta a roda viva

Filed under: Música,Poesia — Um Barco @ 8:31 pm

domingo, 4 outubro 2009

Um dia…

Um dia é uma vaga lembrança de um passado incerto e, por isso mesmo, confiável, na medida em que é hoje na mente o que desejamos e não o que efetivamente foi.

Um dia a casa não vai cair, não iremos mudar, nada houve.

Um dia é a consciência abafada pela percepção cotidiana e rotineira.

Um dia é o preço temporário pelo medo da noite ou o peso necessário para atravessar incólume a madrugada.

Um dia é a esperança tão raivosa quanto inútil de um desabafo, uma revolta contra aquilo que nos aflige, mesmo que só dependa de nós mesmos sua solução.

Um dia é um sonho possível, além da crua verdade que teimamos em ocultar de nós mesmos, mas é a impossibilidade assumida, porquanto atrelada a nossos receios, nossa incapacidade assumidas.

Um dia é uma mentira, uma ilusão vendida, uma realidade que não se concretiza aquém do desejo ou além do esperado.

Apesar de tudo, um dia sempre chega, aparece, acontece, ocorre, despenca, não importa qual seja sua manifestação, não importa o que trouxer, não importa.

Um dia, porém, é o aparecer repentino, o retorno prometido, a vontade finalmente satisfeita, o sorriso antes reprimido, agora liberto, o pranto alegre, a tentativa com sucesso.

“Um Dia”, além de tantos outros títulos, ou parte de títulos de músicas, é uma canção do Caetano Veloso, finalista do II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record de São Paulo, em outubro de 1966 e prêmio de melhor letra.

Em junho desse mesmo ano, no II Festival Nacional de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, Caetano logrou a quinta colocação com a música “Boa Palavra”, canção veladamente engajada.

Ambas as canções foram defendidas por Maria Odete, uma bonita cantora, de voz forte e interpretação um pouco empostada, porém bastante expressiva. Sobre sua interpretação de “Boa Palavra”, Zuza Homem de Mello em seu livro “A Era dos Festivais”,  relata que ela foi “…ovacionada entusiasticamente ao interpretar a curiosa melodia de Caetano Veloso, no arranjo de Antonio Adolfo, com uma garra impressionante, exagerada até sob certos aspectos, mas que fez vibrar a assistência…”.

Minha lembrança primeira de “Um Dia” é, justamente, na voz de Maria Odete, quando assisti à fita da final do festival. Posteriormente, a canção foi gravada por seu autor, mas com um arranjo bem diferente e que, confesso, não me agradou.

Deixo, abaixo, o vídeo do You Tube, trazendo a interpretação da final do festival. Nele, um Caetano Veloso quase juvenil e ainda não tropicalista mostra sua satisfação pelo êxito da canção que, infelizmente, foi esquecida, enquanto “Boa Palavra” seria gravada, posteriormente, por Elis Regina.

 

 

Um Dia
(Caetano Veloso)

Como um dia, numa festa
Realçavas a manhã
Luz de sol, janela aberta
Festa e verde o teu olhar

Pé de avenca na janela
Brisa verde, verdejar
Vê se alegra tudo agora
Vê se pára de chorar

Abre os olhos, mostra o riso
Quero, careço, preciso
De ver você se alegrar

Eu não estou indo-me embora
Estou só preparando a hora de voltar

No rastro do meu caminho
No brilho longo dos trilhos
Na correnteza do rio
Vou voltando pra você

Na resistência do vento
No tempo que vou e espero
No braço, no pensamento
Vou voltando pra você

No Raso da Catarina
Nas águas de Amaralina
Na calma da calmaria
Longe do mar da Bahia
Limite da minha vida
Vou voltando pra você

Vou voltando, como um dia
Realçavas a manhã
Entre avencas, verde-brisa
Tu de novo sorrirás

E eu te direi que um dia
As estradas voltarão
Voltarão trazendo todos
Para a festa do lugar

Abre os olhos, mostra o riso
Quero, careço, preciso
De ver você se alegrar

Eu não estou indo-me embora
Estou só preparando a hora de voltar

Filed under: Digressões,Música — Um Barco @ 9:46 pm
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