Um Barco

quinta-feira, 11 setembro 2008

Até

Até quando verei a noite,
Vazia como uma saudade,
Tão escura quanto fria,
Mais crua que a verdade?

Até que ponto a escuridão
Vai me esconder da tristeza,
Quando o que me restar for nada
Além de ausência e certeza?

Até onde me levará a ilusão
Que sempre foi lanterna e guia
No instante em que o fim do túnel
Revelar o que eu não via?

Até, talvez, ao encontro vazio
Com nada além do que se espera,
Nada aquém do que se teme
Quiçá a última quimera.

Até porque a dúvida, amiga fiel,
Agora que tudo é mais claro,
Se afasta deixando a verdade,
Desencanto, desamparo.

Até que enfim e, certamente,
Até o fim de todo segredo,
Até que o sorriso se acabe, vazio,
Até outro sonho, outro medo.

 

Memória e Fado
(Egberto Gismonti & Geraldo Carneiro)

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Por que o sonho terminava
Quando o dia amanhecia
No espelho
Vinha um medo desse gosto morto do passado
Mergulhado na memória
Eu não queria que a vida findasse no abismo desse quarto
Amargando amargurada solidão

Por que a hora se esvazia
Na memória do espelho
Como um fado
Teço o fio do meu sonho cheio de mistério
Um rosário de silêncio
E a minha boca fechada com medo das sombras desses anjos
Que se foram e não voltam nunca mais

Filed under: Poesia — Um Barco @ 8:28 pm

quarta-feira, 20 agosto 2008

A última fatia de torta

Uma bandeja, uma fatia de torta, a última. Assim, simplesmente. Ela é o que vemos nela, aquilo em que se tornou, o que sobrou, o que restou, guardando de sua origem somente alguns atributos intrínsecos, mais nada.

Ela representa, talvez, uma ponte entre o desejo e o remorso. A última fatia é uma tortura para aqueles que sofrem do mal de não pensar apenas em si mesmos, essa verdadeira doença que nos obriga a meditar e repensar sobre cada conseqüência possível, por mais improvável que seja, de cada pensamento, palavra e ato.

Pouco importa que outra torta igual esteja aguardando na confeitaria onde foi comprada a que deu origem a essa fatia que nos julga, somente por estar ali, e por ser a última, símbolo de todo um contexto que jamais se repetirá. Por isso mesmo, não há outra torta igual.

Não interessa que o sabor seja o mesmo, até porque não será mesmo, uma vez que sabores são fluidos e efêmeros, como o são os odores, como, mais ainda, são os toques, os momentos.

Impossível olhar, sem que sentimentos diversos brotem de cada sentido. Fantasiar a sensação quase sensual da saliva que enche a boca com a expectativa do sabor, do doce. Imaginar o cheiro, na iminência da mordida que causará a comunhão com aquele objeto do desejo. O fechar de olhos, concentrando no gosto todos os outros sentidos. O mastigar lento, querendo inundar a boca com aquele sabor, querendo prolongar, ao máximo, quase um orgasmo. O engolir relutante, mas inevitável. O abrir os olhos, o cair em si.

E lá está a última fatia de torta, solitária, numa bandeja fria, como frios são os quartos, nos quais somos os únicos, os últimos.

Comê-la seria impensável, porque há outros que também a desejam. Quem somos nós, para merecê-la? Como usufruir daquele prazer sem sentir uma ponta de culpa e remorso subseqüentes, pelo ato solitário?

Não comê-la seria uma provação, uma provocação, uma verdadeira prevaricação sensorial, um crime contra a própria natureza humana.

A última fatia de torta é a afirmação da renúncia ou a negação da solidariedade, é a ponte entre o cotidiano profano dos atos e o divino interior das emoções. Estar ou não estar, comer ou não comer, viver ou não viver, tudo isso para ser ou não ser, muitas questões.

Por falta de filosofia mais profunda, por falta de chocolate, por não estar numa janela olhando para uma tabacaria, bebo a angústia que a última fatia desperta, como se todo o ato de viver fosse sintetizado por uma dentada numa fatia de torta, a única, a última, meu elo com a realidade, alegoria de mim mesmo.

Carta
(Francis Hime & Ruy Guerra)

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Nunca estive tão sozinho
Nos caminhos da tristeza
Nos campos de outra nobreza
Nos lagos de tanto vinho
Nunca estive tão sofrido
Nos trilhos da solidão
Nas carreiras da paixão
Nas dentadas desse pão.

Nunca estive tão cansado
Nas calmarias de um bar
Nas paradas de um olhar
Nas tatuagens de um fado
Nunca estive tão assim
Tanta rama e tanta gana
Tão maduro e tão sem cama
Tão seguro e tão sem fim.

Filed under: Prosa — Um Barco @ 11:05 am

quinta-feira, 7 agosto 2008

Cedo ou tarde

Cedo ou tarde, não tem jeito,
A conta é apresentada,
Mais alta que o esperado,
Tão cara quanto doída,
Toda cobrança da vida.

Cedo demais me parecia,
O tempo que se arrastava,
Lento e frio escorrendo
Como o suor pelo rosto,
Todo travo do desgosto.

Cedo ou tarde, eu já sabia,
Que o sonho ia findar
Na percepção do instante,
No despertar da razão,
Todo engano da ilusão.

Tarde demais, eu me dizia
E foi como num momento,
Apenas um instante,
Não mais que um segundo,
Todo tempo do mundo.

Tarde ou cedo, cedo ou tarde,
Não importa o quanto dure,
Mais tarde que o por do sol,
Mais cedo que o amanhecer,
Toda angústia de ser.

 

Meia Noite
(Edu Lobo e Chico Buarque)

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Se a noite não tem fundo
O mar perde o valor
Opaco é o fim do mundo
Pra qualquer navegador
Que perde o oriente
E entra em espirais
E topa pela frente
Um contingente
Que ele já deixou pra trás
Os soluços dobram tão iguais
Seus rivais, seus irmãos
Seu navio carregado de ideais
Que foram escorrendo feito grãos
As estrelas que não voltam nunca mais
E um oceano pra lavar as mãos

Filed under: Poesia — Um Barco @ 5:38 pm

sexta-feira, 25 julho 2008

Modinha

Ler sobre uma música entitulada “Modinha” leva, invariavelmente, as pessoas de minha geração a pensarem numa rosa na janela, evocando a belíssima canção escrita por Sérgio Bittencourt e vencedora do III Festival de Música Popular Brasileira, de 1968. Não é o caso deste post.

Tampouco discorrerei sobre o gênero musical modinha, que pode ser visto em outras fontes, uma delas o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, fantástica obra de referência sobre nossa música.

Mais recentemente, em 2000, Francis Hime compôs a Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião, com cinco movimentos, um dos quais, justamente chamado “Modinha”, simbolizando o Brasil império. Também não é esta, a modinha deste post.

Esta Modinha é uma “Canção do Amor Demais”, nome do álbum emblemático, lançado em 1958, considerado marco da bossa nova, pelo acompanhamento de violão de João Gilberto, ao fundo, para a música “Chega de Saudade” e que reuniu músicas de Tom e Vinicius escritas especialmente para Elizeth Cardoso. Posteriormente, em 2003, Olívia Byington gravou as canções do amor demais e, em 2005, regravou para o filme “Vinicius”, sendo esta a interpretação que poderão ouvir.

 Modinha é uma daquelas canções que me tocam, embora não tenha feito parte de nenhum acontecimento ou fato importante de minha vida. Nem me lembro qundo a ouvi pela primeira vez. Na verdade, só depois de tê-la ouvido com o arranjo desse post é que a melodia me marcou. Não conheço detalhes motivacionais da letra, para quem era dirigida ou até mesmo se há um amor envolvido, já que não fica claro, na letra, a que ilusão o poeta se refere.

Um pouco a letra, outro tanto a música, um pedaço do arranjo e uma boa pitada da interpretação de Olívia Byington fazem com que, ao escutá-la, eu entre num estado que oscila entre a angústia e o desabafo, como querendo arrancar do peito a emoção muda, calada, parada, contida, inútil, quando adormecida, mas que, despertada, infla, amplia, prenche todo o imenso vazio e o vácuo que, paradoxalmente, preenche até os espaços que a tristeza ou a solidão não conseguem ocupar.

Ouço a modinha deste post como quem olha em volta e vê apenas um reflexo de si mesmo em mil espelhos, tudo aquilo que imagino ter sido, que fui, ou não, que não serei ou gostaria de ser, mesmo sabendo que nunca venha a ocorrer e sinto uma dor imensa crescendo, apertando a garganta até, aos poucos, ir-se disssolvendo, deixando o vazio abençoado que sucede a qualquer dor.

Ouço esta modinha com o gosto das noites em que o violão falava por mim e traduzia aquilo que a boca não ousava pronunciar, num passado já longínquo e, como a letra pede, sinto a emoção que ela semeia e que se derrama em mim até o silêncio final, que paira no coração, meio tristeza, meio alívio, e aflora nos olhos, lavando a alma.

Modinha
(Vinícius De Moraes e Antonio Carlos Jobim)

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Não!
Não pode mais meu coração
Viver assim dilacerado
Escravizado a uma ilusão que é só
Desilusão.

Ah, não seja a vida sempre assim
Como um luar desesperado
A derramar melancolia em mim,
Poesia em mim.

Vai, triste canção, sai do meu peito
E semeia a emoção
Que chora dentro do meu coração.

Filed under: Música — Um Barco @ 10:35 am

domingo, 3 fevereiro 2008

Bloco do Eu Sozinho – Marcos Valle

Em 1919, um folião chamado Júlio da Silva ou Júlio Santos, o nome varia, segundo uma busca simples e sem grandes formalismos, que realizei na Internet, saiu fantasiado segurando uma placa onde constava “Bloco do Eu Sozinho”. Encontrei, inclusive, uma foto pequena e sem muita nitidez, aparentemente do folião, onde aparece, creio, o número 43, em cima e à esquerda, no cartaz (talvez o ano da foto).

Saber de alguém só, com sua própria alegria (ou não, quem sabe?), pulando sozinho em meio a uma multidão, despertando, apenas com seu visual, emoções contraditórias, função do momento de cada um, exerceu um enorme fascínio sobre mim, mesmo sem nunca ter visto o personagem.

Por ocasião de sua morte, em 1979, a fantasia já era usada por muitos, em muitas cidades e, no corrente ano, a tradição será mantida, “Pelas mãos do funcionário público Vilmar Torres, que até o último acorde de banda deste ano cumprirá uma maratona em blocos vestido a caráter, em vôos solos como o original.” (noticiado no jornal O Globo, de 23/01/08, Rio,coluna “No embalo”, p. 18.)

Na verdade, o carnaval me fez pensar, de maneira mais forte, na canção com o mesmo título, música de Marcos Valle e letra de Ruy Guerra, sobre a qual já havia afirmado, num post de 2005, ter sido uma espécie de hino de minha juventude.

Só tomei conhecimento da existência do personagem depois de ter escutado a canção em 1968 e, até em função de ter-me identificado com a letra, vesti, interiormente, a fantasia que a música me sugeriu, menos no carnaval, pois, ao contrário do personagem, fui daqueles foliões que saía com uma turma numerosa, nos carnavais de Salvador, na década de 60.

Gosto, na música, da alternância entre os tons menor e maior, como a pontear o estado de espírito que cada estrofe apresenta, na busca, talvez, de um equilíbrio interior impossível, na tentativa que nós próprios tantas vezes fazemos de sermos muito quando, na realidade, sabemos que nem somos o que podemos.

Carnaval faz emergir a dialética do real e do imaginário, a negação do certo pelo etéreo, da supremacia dos sentidos sobre a razão mas, por outro lado, amplia a percepção da fragilidade desse lado racional, tão facilmente (ou etilicamente) contido, por três ou quatro dias.

Domingo de carnaval, noite, após um dia de chuva, que cai, de modo intermitente desde o dia anterior, muito o que pensar, relembrar, reviver, e, naturalmente, compartilhar.

No Bloco Do Eu Sozinho
(Marcos Valle & Ruy Guerra)

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No bloco do eu sozinho
Sou faz tudo e não sou nada
Sou o samba e a folia de fantasia cansada
Sou o novo e o antigo
Sou o surdo e o entrudo
Visto farrapo e o veludo
Faço um breque, depois sigo

No bloco do eu sozinho
Sozinho sou cordão
Sou a esquina do caminho
Sou rei Momo e Damião
Sou o enredo da parada
Sou cachaça e sou tristeza
Pulando junto e sozinho
Faço da rua uma mesa

No bloco do eu sozinho
Sou São Jorge que passeia
Sou alguém que esquece a lua
Em favor de uma candeia
Sozinho sou a cidade
Sou a multidão deserta
Pé na dança e mão aberta
Em busca da vida cheia

No bloco do eu sozinho
Sou a seda do estandarte
Sou a ginga da baiana
Sou a calça de zuarte
Sou quem briga e deixa disso
Sou Oropa e Aruanda
Sou alegria de Rosa
que nunca brinca em serviço

No bloco do eu sozinho
Sou a sorte e o azar
E o folião derradeiro
Que abre os braços pra brincar
Sou passista e sou pandeiro
E nas pedras da calçada
Sou a lembrança mais fria
De um mundo sem madrugada

No bloco do eu sozinho
De toda e qualquer maneira
Na bateria calada
Nas cinzas de quarta-feira
Nos confetes da calçada
Nas mãos vazias de Rosa
Sou alegria teimosa
Sambando pra não chorar

Filed under: Música — Um Barco @ 11:14 pm
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