Um Barco

quinta-feira, 5 abril 2007

Ponto de Fuga

Lá estava eu, meio de tarde, início de outono ainda com jeito de verão, quente, caminhando com outras pessoas, paisagem cinza mesclada de verde, ou vice-versa, dependendo do ângulo, da visão, do ânimo.

Poucos pássaros esvoaçavam em torno de nós, silenciosos como não deveriam ser.

O suor que o sol extraía do corpo, quando exposto, era combatido e evaporado por um vento persistente e refrescante, nas poucas sombras que cobriam nosso breve percurso.

Uma sensação fria, desalento, abandono, tudo o mais contrariava o calor que teimava em perturbar qualquer tentativa de concentração, que afastava a vontade de lembrar, de reviver, de voltar a ser.

Lá estava eu, mesmo sem querer, obrigado por mim mesmo àquilo que, naquele momento, me atingia, me afetava, a mim e às pessoas silenciosas, naquele caminhar.

E eu observava em cada olhar um infinito próprio. Em muitos, a tristeza explícita, em outros, o vazio do não querer acreditar, em poucos a seriedade dos que entendem que o inexorável é absoluto.

Era tudo meio irreal, como ocorre nas horas em que a vontade de não estar suplanta a percepção objetiva. Era o humano face a face com eterno.

Chegamos, eu e as outras pessoas, ao destino final da caminhada para escutar as palavras tantas vezes ouvidas, em formas diversas, mas com o mesmo sentido.

E ouvimos, olhos fixos num ponto à frente mas que, na verdade, enxergavam muito além, muito mais que o horizonte cinza e artificial que nos cercava.

E respondemos, mecânica e reflexivamente, sem ao menos procurar entender, analisar, elaborar.

E assim fiquei, até o fim, olhos parados, mente vazia, coração trancado, como que observando uma estrada reta à minha frente, laterais se estreitando até que, lá longe, se transformavam num ponto de fuga que, no momento, simbolizava o futuro, conforme percebíamos, estreito, finito.

Naquele momento, nem sei bem porque, me lembrei de Olívia Byington cantando, cristalinamente, a canção abaixo.

E o momento passou, deixando a realidade invadir, mais uma vez, os sentidos até então amortecidos.

E, contudo, a vida continuou, apesar do vazio aparente, apesar de nada.

Água e Vinho
(Egberto Gismonti & Geraldo Carneiro)

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Todos os dias passeava secamente na soleira do quintal
A hora morta, a pedra morta, a agonia e as laranjas do quintal
A vida ia entre o muro e as paredes de silêncio
E os cães que vigiavam o seu sono não dormiam
Viam sombras no ar, viam sombras no jardim

A lua morta, a noite morta, ventania e o rosário sobre o chão
E um incêndio amarelo e provisório consumia o coração
E comecou a procurar pelas fogueiras, lentamente
O seu coração já não temia as chamas do inferno
E das trevas sem fim, haveria de chegar o amor

Filed under: Prosa — Um Barco @ 10:00 pm

1 Comentário »

  1. o calor fresco do texto penetrou no meu corpo, me vesti de forma fresca e sentei-me para ouvir a música.
    A delicia do poema me descansou…

    te beijo

    Comentário by Taí­s — quinta-feira, 12 abril 2007 @ 10:49 am

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