Um Barco

domingo, 8 agosto 2004

Navegar é preciso?

Há algumas semanas, conversava, por telefone, com minha amiga, poeta e blogueira Silvia (vide, e não deixe de visitar, “in the meadow” ali ao lado, em “Blogs que leio”), sobre o significado da frase que coloquei sob o título deste blog, “Navegar não é preciso, é necessário mas não preciso”.

Fiz ver a ela que era propositadamente ambígua, deixando que cada um buscasse a explicação (ou a falta dela) que melhor lhe aprouvesse.

Meu amigo Bráulio Tavares, escritor, poeta, editor, tradutor, músico (etc e ufa!) me envia, semanalmente, as colunas que escreve para o Jornal da Paraíba e as leio com prazer, haja vista o estilo límpido, o humor e a inteligência com que expõe suas idéias. Não é à toa que até uma comunidade virtual foi criada no Orkut, com a finalidade de discutir esses artigos

Calhou que, na última remessa, houve um artigo entitulado “Navegar é preciso”. Bastou um telefonema para obter dele a gentil autorização para republicá-lo neste blog, o que faço agora.

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Navegar é Preciso
Braulio Tavares

É um texto famoso de Fernando Pessoa, desses que se incorporam à memória cultural de um povo. Cito de memória: “Navegadores antigos tinham um lema: navegar é preciso, viver não é preciso. Quero para mim este lema, adaptando-o à minha vida e à minha missão no mundo: viver não é necessário, o que é necessário é criar.” Para a minha geração, a frase lembrada por Pessoa foi popularizada por Caetano Veloso em sua canção “Os argonautas”, no seu “disco branco” saído em 1969, logo após sua prisão pelo regime militar. Nenhum de nós tinha a menor idéia de quem fosse Fernando Pessoa. Era apenas um nome que Caetano tinha bradado, enfurecido, para a platéia que o vaiava durante sua interpretação de “É proibido proibir”, num daqueles festivais. Com a vaia, o cantor interrompeu o canto e disparou na direção da platéia um monólogo a plenos pulmões com uns dez minutos de duração, no qual, a certa altura, gritava: “Hoje não tem Fernando Pessoa!”

Fernando Pessoa? Quem diabo é esse cara? Corremos todos para as enciclopédias e descobrimos que era um “poeta modernista português, falecido em 1935”. Ficamos mais perplexos ainda. Oi… quer dizer que o Modernismo tinha chegado em Portugal?! Pensávamos que Portugal tinha estacionado em Camões e Gil Vicente. Aí saiu um compacto simples, tendo no lado B a faixa “Ambiente de festival”, com a vaia do teatro e a diatribe de Caetano, e no lado A a canção “É proibido proibir” (“A mãe da virgem diz que não… e o anúncio da televisão… e estava escrito no portão…”), na qual, a certa altura, brotava a voz surda e angustiada de Caetano recitando: “Esperai! Cai no areal e na hora adversa que Deus concede aos seus…” Eram os versos do poema “D. Sebastião”, na parte III de “Mensagem”, único livro publicado em vida por Fernando Pessoa.

Até hoje não sei o que diabo têm a ver Dom Sebastião e o slogan “É proibido proibir”; mas foi este talvez o primeiro link “pessoano” na obra de Caetano, retomado depois com “Os argonautas”: “O barco… meu coração não agüenta tanta tormenta, alegria, meu coração não contenta…” Era um fado nostálgico em tom menor, ao som de bandolins, onde se misturavam temas como a navegação sem rumo e o vampirismo (“O barulho do meu dente em tua veia… o sangue, o charco…”). E o refrão, em tom maior ascendente, triunfante: “Navegar é preciso… Viver não é preciso!”

Só muitos anos depois é que vi comentários sobre a ambigüidade da frase. “Precisão” pode significar necessidade: navegar é necessário, viver não é necessário. Mas pode significar também exatidão, e aí teríamos: navegar é uma ciência exata, viver não o é. O que está muito mais de acordo com os argonautas da Escola de Sagres, com suas bússolas, astrolábios e portulanos. Naufrágios, calmarias e tempestades, no entanto, nos mostram a ingenuidade dessa distinção. Viver e navegar estão submetidos ao mesmo princípio de incerteza. Não nos esqueçamos de que para navegar é preciso viver, não é preciso?

(Publicado no Jornal da Paraíba, edição de 25 de julho de 2004)
(Republicado com a permissão do autor, Bráulio Tavares)

Filed under: Prosa — Um Barco @ 7:36 pm

sexta-feira, 6 agosto 2004

Sabe Gente…

Não poucas vezes, me pergunto o que fez com que este blog chegasse até aqui. Sim, porque eu sei como começou e garanto que, na época, jamais imaginei que iria preencher tantas páginas.

Quem se der ao enorme trabalho de ler meus dois primeiros posts, perceberá o tom irônico que, na verdade, disfarçava a real intenção, conhecer a estrutura de um blog, e eu falo em “html”, “xml”, etc. Isso fica mais claro nos links dos comentários, que fiz questão de manter (o tal “Mais gente lendo…loucos…”). E mantive os dois posts, como um lembrete para mim mesmo.

A partir do terceiro e, principalmente, do quarto post, algo despertou em mim, algo, tenho certeza, que aflora em muitos(as) “blogueiros(as)”. Talvez a tal “força estranha” do Caetano que, em nosso caso não nos leva (apenas) a cantar, mas a “blogar”.

E nos transformamos, não em uma outra pessoa, mas em uma persona meio oculta ou voluntariamente contida de nós mesmos que, na hora em que nos sentamos para publicar algo, assume o comando de nossa vontade e nos faz escrever ou desenterrar escritos antigos, reprimidos por nossa autocrítica.

E passamos a ser conhecidos (por quem não nos conhece, é claro) pelo que postamos e não pelo que somos ou cremos ser, o que não quer dizer que seja ruim ou bom. Um rótulo virtual, talvez.

Já pensei em deixar Um Barco atracado em alguma página, com algum último post, estático, porém sem nenhuma menção de despedida, afinal, nunca é bom destruir as pontes por onde passamos. A volta é sempre uma possibilidade. Uma força, porém, me leva a “blogar”, como na música.

Como já é de meu feitio, fecho o post com uma música que traz alguma leve afinidade com o clima do post. A música, de Gilberto Gil, é uma [espécie de] resposta e uma homenagem a “Eu Preciso Aprender a Ser Só”, dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle”, tanto que esta é citada em melodia e letra. Eliminem da letra, no que diz respeito ao meu estado de espírito, qualquer menção a tristeza, já que tenho atravessado uma calmaria emocional repousante, me sentindo, como disseram os Secos e Molhados, “…muito leve, leve, leve, leve, pluma…”.

Preciso Aprender a Só Ser
(Gilberto Gil – 1973)

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Sabe, gente
É tanta coisa pra gente saber
O que cantar, como andar, onde ir
O que dizer, o que calar, a quem querer

Sabe, gente
É tanta coisa que eu fico sem jeito
Sou eu sozinho e esse nó no peito
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder

Sabe, gente
Eu sei que no fundo o problema é só da gente
É só do coração dizer não quando a mente
Tenta nos levar pra casa do sofrer

E quando escutar um samba-canção
Assim como
“Eu Preciso Aprender a Ser Só”
Reagir e ouvir
O coração responder:
Eu preciso aprender a só ser

Filed under: Digressões,Música — Um Barco @ 6:48 pm

domingo, 1 agosto 2004

Sobre o difuso…

Apesar da formação profissional me direcionar ao cartesiano, confesso que gosto do difuso, do incerto, do apenas sugerido.

Me agrada a obra aberta, inacabada, a palavra que sugere mais do que explica, o símbolo que instiga mais do que revela.

Gosto da imagem enevoada, impressionista, detalhes (aparentemente) desfocados que, com a distância, ganham contornos nítidos e luminosos. Negação do conhecimento pela proximidade.

Aprecio a arte que deixa a interpretação inteiramente a meu cargo. A obra me indica caminhos, tendências. Escolho o significado que quero, de acordo com o que sinto na ocasião.

Que eu não seja, por favor, rotulado de elitista ou purista. Nada do que declarei exclui o figurativo, o claro, o fechado. Um soneto, de métrica clássica, uma música de polifonia clara, um romance com final determinado também me agradam. O que desejei transmitir foi minha preferência genérica pela sutileza.

Já vi e ouvi muitos experimentalismos na década de 60 para me impressionar facilmente com propostas que se dizem “avançadas” ou “transgressoras”.

Gosto, especialmente, de letras de músicas que possuem viés simbolista ou aberto, bem como daquelas que nada dizem, mas carregam uma sonoridade forte, pelas palavras usadas.

Atentem para a letra de “Açaí”, de Djavan. Nenhum sentido aparente nas palavras, entretanto, principalmente na gravação de Gal Costa, uma enorme musicalidade, casamento de letra, música, ritmo.

Há muito de simbolismo nas primeiras letras de Caetano Veloso, infelizmente pouco conhecidas, já que antecedem “Alegria, Alegria”, música que o tornou famoso.

Poderia escolher letras de Caetano, como “Um Dia”, “Boa Palavra” ou “Clara”, para ilustrar o post e minha preferência pelo difuso, mas optei por Jessé cantando a música “Era Um Dia” (não confundir com outra música gravada por ele, “Um dia…”).

Era um Dia
(Oswaldo Montenegro)

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Era um dia de manhã
Como nos dias de manhã se pode ser
Claro como um dia claro
É como a gente,
É pouco mais do que ser claro
É o que se pode ser

Avalia o coração
Como teu coração também se julga ser
Forte como a chuva é forte
É como a gente,
É pouco mais do que ser forte
É o que se pode ser

Era tudo como tudo
É como se pudesse resultar em nada
Ah eu tenho medo pelo nosso amor
E como o dia amanhecer

Era tudo como tudo
É como se pudesse resultar em nada
Ah eu tenho medo, como se pode ter medo
Quando está feliz

Filed under: Digressões,Música — Um Barco @ 11:35 am
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